11 abril 2026

Tributo a Zé Eduardo

 

Era 1º de maio de 1984 e a classe trabalhadora, no Brasil inteiro, vivia momentos de muita efervescência. Em Sergipe, uma nova geração de sindicalistas, adeptos do sindicalismo combativo, acabara de fundar a Central Única dos Trabalhadores – CUT. Esses mesmos sindicalistas, anos antes, junto com outros jovens militantes do movimento estudantil, lideranças de movimentos sociais, militantes sociais ligados as comunidades eclesiais de base, mais alguns dissidentes do Partido Comunista, haviam também fundado o Partido dos Trabalhadores em Sergipe.

Naqueles tempos nós não éramos muitos e quase todos nos conhecíamos. Por isso mesmo, qualquer pessoa desconhecida em meio a uma manifestação política como a daquele 1º de maio, era vista com desconfiança. E não era apenas paranoia. Vale lembrar que ainda estávamos sob a ditadura militar e era comum haver arapongas da Polícia Federal infiltrados nos movimentos sociais.  

Naquele ano a manifestação em comemoração ao Dia do Trabalhador foi realizada na Praça Dom José Thomás, zona sul de Aracaju. Cheguei lá e logo me incorporei aos companheiros do Sindicato dos Bancários. Logo um deles me puxou pelo braço e cochichou ao meu ouvido:

- Você conhece aquele cara com jeito de mórmon ali? - Me pergunta Robertão apontando para um rapaz branco, vestido numa camiseta branca, calça jeans que de tão desbotada também parecia branca e tênis branco. O sujeito era alto, usava um grosso bigode, caladão, transitava em meio aos companheiros da Apemise (Associação Profissional dos Mineiros de Sergipe), entidade de classe dos operários da Petrobras Mineração – Petromisa.

- Parece um daqueles rapazes do Artnatus – respondi.

O Artnatus era um restaurante de comida natural que havia no centro da cidade e era administrado por um senhor e seus dois filhos. Os três vestiam branco o tempo todo.

- Prá mim é PF – vaticinou Robertão decidido a escorraçar o “mórmon”.

- Pera aí, deixe-me verificar com os mineiros se eles o conhecem – ponderei.

Me aproximei dos companheiros da Petromisa e assim que me avistou, Marcelinho, então presidente da Apemise, me recepcionou:

- Oi Negão, tudo bem? Deixe-me lhe apresentar um companheiro nosso. O Mineiro. Ele é geólogo da Petromisa e tá na luta com a gente lá. 

Pronto. Nem mórmon, nem araponga, nem o rapaz do Artnatus. O Mineiro era José Eduardo de Barros Dutra, ou simplesmente Zé Eduardo, um dos maiores, mais brilhantes e mais qualificados quadros políticos do Partido dos Trabalhadores e do movimento sindical em Sergipe.

Terminamos aquele 1º de maio de 1984 no bar. No Saneamente. Era um barzinho onde a jovem esquerda sergipana se reunia para lavar a alma com cerveja gelada e pensar a revolução pacifica que nos levaria a um tempo novo de democracia, de liberdade e de um mundo melhor para todos.

Desde as primeiras palavras trocadas, foram surgindo uma identidade, uma sintonia e uma cumplicidade. Tínhamos gostos semelhantes. Gostávamos do mesmo tipo de música. Adorávamos cinema e comentar sobre filmes e o desempenho de atores e diretores. Nos gostávamos do cinemão de Hollywood. Ele rolava de rir quando eu dizia que não gostava do cinema francês porque os filmes deles eram feitos no escuro, com pouca luz, e eu não suporto escuro.

Foi assim que naquele 1º de maio de 1984 eu encontrei o irmão que não tinha até então. Ele alvo e eu negro. Nós dois, alvinegro. Sim, botafoguenses de coração e alma. Éramos da mesma idade. Nascidos no mesmo ano de 1957 éramos quase gêmeos. Eu de 17 de janeiro. Ele de 11 de abril. Ele se vangloriava de ser mais novo que eu 2 meses e 24 dias. Moramos juntos e viajamos juntos. Nos conhecíamos bem e nos entendíamos por gestos e olhares.

Certa vez, viajando pela Espanha, depois de visitarmos vários pontos turísticos de Barcelona, paramos num boteco perto do Hotel em que estávamos hospedados. Aliás, outro ponto que tínhamos em comum: adorávamos boteco. Quanto mais pé sujo, melhor. Pois bem, naquela noite em Barcelona fazia um frio de menos 6 graus. Entramos no boteco da Vina (pronuncia-se Bina) para bebermos cerveja, comermos um petisco antes de dormir. Foi quando eu vi na prateleira uma garrafa de Moscatel. Trata-se de um tipo de vinho feito da uva Moscato de sabor adocicado. Mostrei pro Zé e contei que foi com aquela bebida que eu tive, ainda adolescente na velha Capela, o meu primeiro porre. Coincidentemente o Zé falou que ele também tinha se embebedado pela primeira vez quando ainda garoto na cidade de Caputira (MG), com o mesmo Moscatel. Mandamos descer uma garrafa, depois outra, depois outra... resultado: nos embriagamos pela segunda vez com o velho Moscatel, agora na Catalunha.

Segundo Zé Eduardo, deveria haver uma conexão entre Capela, Caputira e Catalunha, cujos nomes começavam com a mesma sílaba e que era justificada pelo vinho Moscatel. Estava, portanto, criada a Conexão Moscatel. Além de tudo, uma homenagem ao vinho que nos batizou para a vida etílica. Talvez esteja aí, na nossa vivência interiorana, a simbiose que nos aproximou, externou nossas semelhanças e nos fez amigos irmãos.

A experiência acumulada nas lutas democráticas dos anos 80, uma fulgurante inteligência, e um aguçado feeling político colocou Zé Eduardo como um dos principais quadros petista e protagonista da cena política sergipana. Em 1986, o Partido dos Trabalhadores lança uma chapa com 12 candidatos a deputado estado estadual, entre eles José Eduardo Dutra. Apoiado por amplos setores do movimento sindical sergipano, ele termina a eleição em terceiro lugar. O PT elegeu dois deputados estaduais. Marcelo Déda e Marcelo Ribeiro. Zé Eduardo ficou como primeiro suplente.

Nesse período, Zé concilia o trabalho como geólogo na Petromisa, com sua atuação no movimento sindical e como dirigente partidário. Com a transformação da Associação dos Mineiros em Sindicato, Zé Eduardo vira presidente do Sindimina. No Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores de 1988, ele é eleito dirigente nacional da CUT, enquanto o PT sergipano o convoca para ser seu secretário sindical.

Na memorável campanha presidencial de 1989, a primeira depois de mais de duas décadas sem eleições para presidente da república, Zé Eduardo foi escolhido pelo PT de Sergipe para coordenar a companha de Lula no estado. Ali se revelou o articulador político. Bom negociador, conciliador, confiável, predicados que o credenciou para ser escolhido pelos petistas sergipanos como candidato a governador do estado no ano seguinte.

Do outro lado, o campo político conservador que havia rachado na eleição de1986, se reunificou num bloco denominado Acordão. João Alves, liderança do Partido da Frente Liberal – PFL, que já houvera governado a capital e o estado, voltava a ser candidato. Apoiado pelo então governador Antônio Carlos Valadares e pelo senador Albano Franco entre outras lideranças da direita sergipana, João foi eleito com folga, mas Zé Eduardo liderou o campo progressista e de esquerda naquela eleição abrindo caminho para o PT se transformar num dos principais partidos de Sergipe e anos mais tarde conquistar a Prefeitura de Aracaju e o governo do estado.

Além de todas as frentes de atuação, Zé ainda enfrentava uma árdua batalha contra a privatização da Petromisa. A empresa fazia parte da lista de estatais que o governo Collor pretendia privatizar. Ao final, Zé saiu-se vitorioso. Sob sua liderança a luta dos mineiros da Petromisa impediu que a empresa fosse privatizada sendo encampada pela também estatal Companhia Vale do Rio Doce. Anos mais tarde, já sob o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, a Vale também seria privatizada.

Em 1993 Zé Eduardo é eleito presidente do Partido dos Trabalhadores em Sergipe e lidera o partido nas negociações de uma frente progressista para as eleições de 1994. O PT, até então um partido um tanto sectário, pouco afeito a política de alianças, entrou nesse processo abrindo uma nova página na construção de um novo momento político colocando o Partido no papel de protagonista na estratégia de levar o campo progressista a governar pela primeira vez o Estado de Sergipe, secularmente governado por conservadores de direita.

Fruto da capacidade de liderança, da sabedoria como conduziu o PT no processo de construção da Frente, da determinação e da clareza dos objetivos a serem alcançados, Zé Eduardo terminou sendo indicado pelo Partido para compor a chapa majoritária como candidato a uma das duas vagas de senador daquela eleição. A outra vaga ficou para o ex-governador Antônio Carlos Valadares, que depois de ter sido traído pelo campo conservador, deixou as hostes da direita se aliando ao bloco progressista onde atua até hoje. A chapa era liderada pelo ex-prefeito Jackson Barreto, tradicional quadro da esquerda sergipana, como candidato a governador, tendo como candidato a vice-governador o então senador Francisco Rollemberg, ele também um político dissidente do campo conservador. Essa foi uma eleição histórica. Além de ter levado Jackson ao segundo turno na disputa com Albano Franco, essa chapa elegeu os dois senadores. Valadares e o próprio Zé Eduardo. Foi também a eleição que levou, pela primeira vez, um petista a Câmara dos Deputados. Marcelo Déda que havia perdido a reeleição de deputado estadual em 1990, dessa vez foi um dos oito deputados federais eleitos por Sergipe. Os dois, Zé e Déda, tiveram mandatos tão destacados, que viraram referências nacional, lideraram suas bancadas no Senado e na Câmara e se transformaram em orgulho dos sergipanos.

Oito anos depois, em 2002, fruto do excepcional trabalho realizado como senador da república representando o Estado de Sergipe, Zé Eduardo tinha uma reeleição tranquila, segundo a opiniões correntes entre os analistas político da época. Mas Zé era diferenciado. Não era um carreirista da política. Não era egocêntrico. Compreendia a política como o espaço da construção coletiva. E ainda por cima tinha um enorme senso de responsabilidade. E foi por compreender a responsabilidade daquele momento histórico que Zé abriu mão de uma reeleição praticamente certa para o Senado, por uma candidatura com eleição duvidosa para o governo do Estado. Pensou no coletivo. Pensou no seu Partido. E assim pavimentou o caminho para o PT conquistar o governo em 2006 com Marcelo Déda à frente.

Aquela foi uma eleição muito disputada. De um lado o ex-governador João Alves liderava o campo da direita. Esse campo conservador tinha ainda como candidato o ex-senador Francisco Rollemberg que havia retornado ao seu antigo ninho. Era o candidato governista apoiado pelo então governador Albano Franco. Contra os dois titãs da direita, esgrimia o líder esquerdista José Eduardo Dutra. E o fazia com a habilidade de sempre. E foi dominando a arte de esgrimir na política que Zé derrotou o candidato governista e foi para o segundo turno contra João Alves.

No segundo turno, outra eleição. O campo conservador se juntou e fez uma das campanhas mais virulentas e abjetas que vimos em Sergipe. A prática de xenofobia virou oficial nos palanques e nos veículos de comunicação do Estado. Zé era chamado de forasteiro em todos os cantos e espaços da campanha direitista. Para se ter ideia dos absurdos cometidos, o presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe de então, então Desembargador Antônio Góis, apareceu no programa eleitoral de rádio e TV pedindo voto para João Alves contra Zé Eduardo.

Em 2003, com a vitória de Lula a presidente da república, Zé é indicado presidente da maior estatal brasileira, a Petrobras. E mais uma vez fez história. Os números prodigiosos da época mostram o êxito de sua gestão, também marcada por seu compromisso com a ética. Tanto que quando veio a crise do chamado Mensalão, vários dirigentes da estatal foram denunciados e presos por envolvimento em corrupção e mesmo depois de minuciosas investigações, Zé Eduardo nunca teve sequer seu nome citado em algum mal feito. Assim era Zé Eduardo. Sério, honesto, ético e competente.

Em 2006 Zé voltou a ser candidato ao senado. Mais uma vez foi vítima de xenofobia e da já conhecida virulência da direita local. Sua adversária, Maria do Carmo, esposa do governador João Alves, foi eleita usando desbragada e abertamente a máquina do Estado. Os órgãos de Estado, responsáveis pela fiscalização e lisura do processo eleitoral mais uma vez fizeram vistas grossa e ouvidos de mercador para as denúncias.

Passada a eleição Zé Eduardo assume a presidência da BR Distribuidora, mais uma vez indicado pelo agora reeleito presidente Lula. Em 2009 ao ser convocado para assumir a presidência nacional do Partido dos Trabalhadores, Zé mais uma vez dá provas de sua fidelidade ao projeto político liderado pelo PT deixando o comando da estatal. Como presidente do PT ele vira um dos coordenadores da vitoriosa campanha da presidenta Dilma Roussef.

Tempos depois, acometido por um câncer, Zé abdica da presidência do Partido e se dedica a um tratamento que em princípio apresenta resultados animadores. Praticamente curado retoma ao trabalho, agora como diretor da Petrobras e fica nesse cargo até que a doença volta a ser diagnosticada e ele vai para junto de sua família em Belo Horizonte onde continua o tratamento e vem a falecer na madrugada do domingo, dia 04 de outubro de 2015, aos 58 anos.

Apesar das campanhas desairosas de que foi vítima, em Sergipe Zé Eduardo é reconhecido como um homem digno, um político honesto, competente, de princípios rígidos e um amigo leal e solidário. Dentre outras homenagens, José Eduardo Dutra virou nome de um conjunto habitacional em Aracaju onde residem pessoas de baixa renda. Uma homenagem prestada pelo então governador Jackson Barreto.

Naquele domingo de outubro de 2015, o Brasil perdia um de seus filhos mais brilhantes, Sergipe perdia um de seus representantes político mais talentosos e eu perdia meu único e amado irmão.

04 janeiro 2026

Porque os EUA atacaram a Venezuela

 

Não se trata de combater tráfico de drogas, nem de terrorismo e muito menos de salvamento à democracia, conforme diz a imprensa oficial e as cadelinhas amestradas do capital. O motivo que levou os EUA invadirem a Venezuela neste 03 de janeiro 2026 tem origem em 1974 quando Henry Kissinger, secretário de estado nos governos Nixon e Ford, fez um acordo com a Arábia Saudita criando o PETRODÓLAR, um sistema que manteve os EUA como potência econômica dominante nos últimos 50 anos.

Por esse acordo, todo o petróleo vendido globalmente deveria ser cotado em dólares americanos. Em troca, os Estados Unidos forneceriam proteção militar. Esse fato criou uma demanda artificial por dólares em todo o mundo. Todos os países do planeta precisam de dólares para comprar petróleo. Isso permite que os Estados Unidos imprimam dinheiro ilimitadamente enquanto outros países trabalham para isso. O petrodólar é mais importante para a hegemonia dos EUA do que porta-aviões.

O caldo americano começa a entornar quando a Venezuela, que possui 303 bilhões de barris de reservas de petróleo, (as maiores do mundo, mais que a Arábia Saudita), começa a vender seu petróleo em yuan, euro, rublo, qualquer moeda, menos em dólar, e para completar, solicitou adesão ao BRICS.

Observemos o seguinte cenário: a Rússia vende petróleo em rublos e yuans desde o início da guerra com a Ucrânia. A Arábia Saudita está discutindo abertamente pagamentos em yuan. O Irã negocia em moedas que não o dólar há anos. A China construiu o CIPS, sua própria alternativa ao SWIFT, com 4.800 bancos em 185 países. O BRICS está construindo ativamente sistemas de pagamento que contornam completamente o dólar. O projeto mBridge permite que os bancos centrais liquidem transações instantaneamente em moedas locais.  A entrada da Venezuela no BRICS, com seus 303 bilhões de barris de petróleo, aceleraria isso exponencialmente. É disso que se trata essa invasão.

Olhemos no tempo e na história e veremos o que acontece com líderes que ousaram desafiar o sistema Petrodólar. Em 2000 Saddam Hussein anuncia que o Iraque venderá petróleo em euros em vez de dólares. Em 2003 os EUA invadem o Iraque, Saddam é assassinado e o Iraque promove mudança de regime. O petróleo iraquiano voltou imediatamente a ser cotado em dólares. As tais armas de destruição em massa nunca foram encontradas porque nunca existiram.

Em 2009, Gaddafi propõe uma moeda africana lastreada em ouro, chamada "dinar de ouro", para o comércio de petróleo. Em 2011 a OTAN bombardeia a Líbia, Gaddafi é sodomizado e assassinado e acabou a ideia de moeda lastreada em ouro. E-mails vazados de Hillary Clinton, então secretária de estado no governo Obama, confirmam que essa foi a principal razão para a intervenção.

A invasão a Venezuela e a prisão de Maduro é a repetição de um modus operandi que o resto do mundo olha, mas finge não ver ou prefere fechar os olhos aceitando versões e narrativas inverossímeis e estapafúrdias.

Não se trata de enfrentamento ao tráfico de drogas. A Venezuela responde por menos de 1% da cocaína consumida nos EUA. Não se trata de terrorismo. Não há nenhuma evidência de que Maduro lidere uma "organização terrorista". Não se trata de democracia. Os EUA apoiam a Arábia Saudita, que não realiza eleições.

PS. O presente texto contém dados obtidos no blog pessoal do advogado Luiz Carlos Rocha

22 outubro 2025

Orai e vigiai, Presidente!

 

Nos idos de 2005, o primeiro governo brasileiro liderado pelo presidente Lula se encaminhava para o final com um amplo apoio popular que prenunciava sua provável reeleição em 2006. Ao contrário do povo, o estamento, representado pela elite econômica nativa – ou os donos do poder, conforme Raimundo Faoro – rejeitava, como historicamente rejeitara, a ideia de repartição do bolo que vinha sendo colocada em prática pelo governo petista.

A oportunidade de pôr fim ao governo que ousava fazer justiça social no Brasil, surgiu para a malta endinheirada quando um determinado deputado de notória e extensa folha corrida, resolveu chantagear o governo exigindo espaços em troca de apoio na Câmara dos Deputados. Como o governo não cedeu, o deputado chantagista, hoje devidamente enjaulado, deu origem ao mito do Mensalão. Pronto. Estava ali a oportunidade que os fidalgos da aristocracia tinham para se livrar do que eles entendiam como uma ameaça ao seu modelo de domínio da coisa pública, e derrotar o governo identificado com as causas populares.

Para isso, a mídia e seus serviçais foram intimados para ecoar à exaustão o “mal feito” denunciado pelo deputado bandoleiro. Intelectuais autênticos e indigentes, udenistas da direita e da esquerda, jurisconsultos e jurisconfusos, membros da classe média que furam filas em farmácias e supermercados, dentre outros aventureiros, formaram as trincheiras desse exército de brancaleone. 

Esse espírito de guerra total para derrotar o inimigo a qualquer custo fez com que, durante o julgamento da Ação Penal 470, o famoso Mensalão, um homem branco, ministro do STF, afirmasse que o PT era uma “organização criminosa”. Outro ministro, um homem negro, mesmo sem provas, jurou que houve “compra de apoio político” e que os políticos acusados mereciam, além das penas sentenciadas, o “ostracismo”, ou seja, era a tática de aniquilamento do adversário. Uma mulher, também ministra do Supremo, afirmou, em alto e bom som, que “não havia prova cabal contra o José Dirceu (então ministro da Casa Civil e homem forte do governo), mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”.

Todos eles, o homem branco, o homem negro e a mulher, encantados com os afagos da mídia subordinada ao baronato, determinados em servir ao Príncipe (elite burguesa) e estimulados pela sanha Savonarolesca do Ministério Público Federal da época, praticaram verdadeiro justiçamento contra homens, cujo maior crime era serem pilares de um governo que ousou fazer justiça social praticando distribuição de renda e colocando o povo pobre no orçamento.

Passados vinte anos, esses dias, o STJ - Superior Tribunal de Justiça, finalmente repara as atrocidades cometidas lá atras e reconhece o erro judicial cometido, encerrando o processo por improbidade no chamado Mensalão, excluindo José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares da Ação Penal 470.

Nesse momento em que grupos de interesses se movimentam em lobbies para pressionarem o presidente da república na indicação do próximo ministro do STF, a lembrança daqueles fatos deixa claro que não é o gênero nem a raça que fazem um bom juiz ou uma boa juíza, mas o seu caráter, seus propósitos e seu compromisso verdadeiro com a justiça. Por outro lado, Lula deve ter aprendido com a experiência vivida. Da forma republicana como ele indicou os ministros do Supremo nos seus dois primeiros governos, certamente ficou uma lição. Restou provado que o republicanismo aprendido e praticado pelas elites desses trópicos, está fundado num velho ditado popular: farinha pouca, meu pirão primeiro.

15 junho 2025

É a economia, estúpido!

 

A chamada “grande mídia” nativa, apesar do eufemístico esforço de se dizer independente, historicamente, sempre teve um lado. O lado dos ricos. Seria mais educativo, além de honesto, fazer como fazem os grandes jornais do mundo. Dizer claramente o lado que representam, o que em tese, não configura nenhum problema, muito pelo contrário. O que não pode e não deve é o jornalismo abrir mão da verdade factual, sob pena de deixar de ser jornalismo para ser mero panfleto.

Infelizmente, é o que faz de forma contumaz a nossa “grande” imprensa ao esconder e ou disfarçar verdades gritantes para atender interesses comezinhos do seu dono, o mercado.

Em defesa dos interesses políticos e dos fundos bolsos dos mais ricos, vemos na mídia que o debate econômico se dá exclusivamente em torno de problemas fiscais que sinalizam para problemas no futuro, mas que não afetam a maioria do povo no momento atual. Divulgam diuturnamente um enorme pessimismo sobre a economia, enquanto resultados muito positivos para a vida real de pobres e ricos são quase ignorados nas análises.

Divulgam a exaustão que a inflação está descontrolada, quando na verdade ela está em média 4,73% em cada um dos últimos dois anos, quando nos quatro anos anteriores a média foi de 6,17% ao ano. A inflação média atual está abaixo da média dos últimos trinta anos (6,5% ao ano), desde que foi criada a atual moeda em circulação.

Diariamente acham e divulgam pesquisas mostrando um descontentamento popular advindos de uma estranha inflação dos produtos alimentícios, mas não dizem que no ano passado os alimentos subiram 8%, menos que os 10% de crescimento na renda das famílias em geral e muito menos ainda que os 19% de aumento na renda das famílias mais pobres.

Diante do caos previsto na economia fiscal futura, nossa mídia não dá destaque ao recuo na taxa de desemprego que chegou a 6,6% da força de trabalho no primeiro trimestre, em nível próximo do mais baixo da série histórica para o período. A previsão atual é de que caia para 5,9% até dezembro. A informalidade no trabalho recuou para 37,9%, taxa situada entre as menores da série histórica iniciada em 2015.

A desigualdade de renda no Brasil atual, medida pelo Índice de Gini, foi a mais baixa da história no ano passado. E a renda per capita domiciliar mensal, a maior desde o início da série histórica, em 2012.

Segundo o Relatório das Nações Unidas sobre Estado de Insegurança Alimentar no Mundo, no Brasil, o número de pessoas em situação de fome diminuiu de 17,2 milhões em 2022 para 2,5 milhões em 2023. Portanto, cerca de 14,7 milhões de pessoas deixaram de passar fome de um ano para outro em nosso país.

O PIB brasileiro surpreendeu novamente os analistas da mídia porta-voz do pessimista mercado e cresceu 1,4% no primeiro trimestre, índice superior ao dos países da OCDE e do G7 que cresceram apenas 0,1%. O crescimento se dá a despeito da imposição de uma assombrosa taxa básica de juros, de 14,75% ao ano, nove pontos percentuais acima da inflação, que desincentiva investimentos.

Vale lembrar que a mídia e seus analistas, atuando como uma espécie de torcida organizada do Íbis, vaticinou para 2023, que PIB seria 1,4% e deu 2,9%. Em 2024, previa-se 1,6% e deu 3,4%.

Essa mesma mídia propala uma pseudo insatisfação dos empresários, mas os lucros das empresas no primeiro trimestre foram excepcionais e superaram as expectativas do mercado. O lucro líquido das 387 companhias abertas não financeiras subiu 30,3% no trimestre, para R$ 57 bilhões, e as receitas cresceram 13,9%, para R$ 976,7 bilhões. Na área financeira, os lucros dos quatro maiores bancos no primeiro trimestre cresceram em média 7,3% e somaram R$ 28,2 bilhões.

Atingido por um processo de desindustrialização nos últimos anos, no Brasil a indústria cresceu 3,1% no ano passado. Em março, avançou 1,2% sobre fevereiro e 3,1% sobre março de 2024.

Portanto, se a nossa mídia levasse em conta os basilares fundamentos da economia, certamente a opinião pública estivesse mais otimista. Ou como diria o jornalista Pedro Cafardo, num extraordinário texto publicado no jornal Valor Econômico recentemente e no qual me inspirei, “ou esse país infeliz tem graves falhas na comunicação ou talvez sua infelicidade e seu pessimismo não venham da economia, estúpido”.

01 dezembro 2024

Tu és o Glorioso!

 

Caia a tarde de fim de novembro em Buenos Aires. Um sol de primavera descia suavemente no horizonte portenho, não sem antes observar atentamente um mar de alvinegros vindo de todos os cantos para encher o Monumental e assistir uma epopeia. Mais da metade deles eram botafoguenses. Eles vinham em grupos de amigos, em família trazendo juntos filhos, pais, avós e até seus antepassados.

Como tudo acontece com o Botafogo, o que seria um jogo de futebol virou um drama shakespeariano. Ainda ecoava no estádio o apito inicial, quando Gregore, cujo nome em grego significa atento e vigilante, num lapso de desatenção deu uma entrada proibida no adversário e foi expulso. A torcida do Glorioso, acostumada às tragédias, temeu pelo pior. Seriam mais de 90 minutos com um jogador a menos.

Nesse momento, enquanto toda torcida alvinegra botava as mãos na cabeça em sinal de aflição, o sol portenho, antes de se esconder por trás do Rio da Prata, deu uma paradinha a tempo de ver Didi, o príncipe etíope, se aproximar de Marlon Freitas e lhe ensinar o que fazer. “Pegue a bola, coloque-a embaixo do braço chame seus companheiros e diga: calma, gente, a Taça Libertadores é nossa, é só jogar o que a gente sabe”.

Ao mesmo tempo o sol jura que viu Garrincha chegar perto de Luiz Henrique e, com seu sorriso maroto, pegar no braço do Pantera Negra e ordenar: “vai lá moleque, faz eles de Joões”. E ele fez. Fez o primeiro gol, levou o pênalti do segundo, marcado por Alex que joga na mesma posição que jogava o gigante Nilton Santos, a Enciclopédia.  Coincidência? Garanto que não.

Segundos antes do fim, intensa pressão atleticana, corações botafoguenses a mil clamando pelo fim do jogo, eis que Júnior Santos incorpora o vivíssimo Furacão Jairzinho, num toque de letra deixa dois defensores para traz e num rebote faz o terceiro gol. No lugar do sol que já havia se posto, surgia uma estrela solitária que iluminava a América. Era o fim do sofrimento. Era mais um passo de um tango que canta os versos da alma botafoguense. Era a Glória Eterna.

 

“...Trago a vida agora calma

Um tango dentro d'alma

A velha história de um amor

Que no tempo ficou

Garçom, põe a cerveja sobre a mesa

Bandoneon, toque de novo que Teresa

Esta noite vai ser minha e vai dançar...”

29 março 2024

Carta aberta aos amigos e colegas jornalistas

Caros amigos,

Vocês sabem o respeito que tenho por todos e, especialmente, o apreço que dedico a vocês, colegas jornalistas. É em nome desses sentimentos que vos escrevo essas mal traçadas linhas. Mas do que formação em comunicação social, eu tenho uma verdadeira paixão pela profissão de jornalista e uma imensurável admiração pelo seu papel na história.

Dito isto, assisto com perplexidade a desconstrução do jornalismo e do seu papel na defesa da verdade dos fatos e, em última análise, dos interesses da sociedade. As novas tecnologias, e uma lógica perversa que busca transformar o jornalismo em entretenimento, onde a busca por likes e audiências ocas, permite que futilidades e manchetes espalhafatosas sejam mais importantes que uma rigorosa e vigorosa apuração de fatos de interesse público, têm sido fortes adversários.

Mas não é somente esse o nosso problema. Num estado como o nosso, onde duas universidades formam algumas dezenas de jornalistas por ano – e isso não é problema - e onde, dos poucos veículos de comunicação que existiam num passado recente, minguaram em quantidade, restaram apenas dois caminhos a seguir como profissional de jornalismo: assessoria de imprensa; ou seu próprio veículo de comunicação - sites, blogs, etc. -. É aí onde temos outro imenso problema. Tanto num caso quanto no outro, o grande empregador e ou patrocinador é o Estado e este, na nossa cultura coronelista, não pede, manda.

Vivemos, nesse ponto, um grande dilema e eu entendo. Há uma peleja que sei que aflige a muitos: Independência x Sobrevivência. E quando se trata de sobrevivência, botar comida na messa da sua família, custear a escola dos filhos, etc., não dá para simplesmente cobrar uma coragem suicida. É preciso ter consciência para reconhecer essa situação e fazer o diagnóstico correto, receitar o remédio certo para curar esse mal que afeta também o jornalismo. Entender que o câncer que nos mata está no modelo de Poder que existe e que sequela não só o jornalismo, mas toda a sociedade.

Mas, amigos, eu entendo que, mesmo fazendo opção pela Sobrevivência e tendo que se entregar aos leões, é preciso fazê-lo com alguma dignidade. E, é preciso reconhecer, alguns colegas assim o fazem. Outros talvez, espero, venham a fazer. Não se trata de aconselhar ou ensinar nada, mas entendo que algumas posturas podem ser superadas. Para agradar o patrão ou patrocinador, não se deve ser mais realista que o rei; não deve fazer da legitima sobrevivência uma corrida para ver quem chega em primeiro lugar na corrida dos puxa-sacos; não deve se rebaixar tanto a ponto de desejar saúde ao “chefe” pelo espirro que ainda nem aconteceu; não deve escrever textos com o fígado, assumindo um ódio que nem o seu patrocinador nutre pela vítima de suas biles. Ainda que haja

algum grau de submissão - não existe almoço grátis -, tem que haver um limite, do contrário logo, logo, você ficará tão desacreditado que se tornará um peso e, assim, descartável.

Encerro a presente missiva, desejando uma Feliz Páscoa para todos e parodiando o grande Mário Quintana: os poderosos passarão... o jornalismo, passarinho!

Silvio Santos, jornalista

30 janeiro 2024

A história como referência

"A história é um carro alegre

Cheia de gente contente

Que atropela indiferente

Todo aquele que a negue..."

(Pablo Milanês)


 

Em julho de 2007, o ex-prefeito paulistano e ex-governador de São Paulo, João Dória, criou um movimento denominado Cansei que contou com a participação de celebridades como Hebe Camargo, Agnaldo Rayol, Ivete Sangalo e outros ricos e famosos para protestar contra o governo Lula. O referido movimento tinha por objetivo denunciar o "caos aéreo" atribuído ao governo federal.



A crise do sistema aéreo ocorreu em função do crescimento exponencial de passageiros gerado pela ascensão da "classe C". Durante o governo Lula, 36 milhões de pessoas saíram da miséria e 60% dos brasileiros tiveram incremento em sua renda.



A ascensão social criou uma nova "classe média" apta a, por exemplo, custear viagens. Tendo como foco essa clientela, companhias aéreas investiram na popularização das passagens e dezenas de milhões de brasileiros passaram a frequentar os aeroportos.

 


Dados divulgados pela ANAC registraram que o Brasil teve um incremento de quase 60 milhões de novos passageiros durante os governos do PT. A expansão do número de passageiros levou à criação de gargalos no sistema aéreo, resultando em longas filas e aeroportos lotados.

 

A situação se agravou em 2006, com a crise financeira da Varig, sobrecarregando companhias aéreas, gerando congestionamentos nas pistas de pouso e déficit de profissionais. Visando explorar politicamente a situação, a imprensa brasileira tratou de elevar ao máximo o drama.

 

Reportagens diárias relatavam o "caos nos aeroportos", com depoimentos de passageiros indignados por ficarem horas aguardando para realizar check-in. O termo "apagão aéreo" foi popularizado e a lotação dos aeroportos se tornou o grande foco dos debates políticos nacionais.

 

Não raramente, o debate era permeado por elitismo explícito e o preconceito de classe expressos no desconforto das camadas sociais altas e médias em dividirem seus espaços tradicionais com a "classe C". Socialites queixaram-se do porteiro que estava viajando a Paris.

 

Até professores universitários ficaram indignadas porque o novo público dos aeroportos tornava o espaço menos condigno, "parecendo rodoviária". O ápice da crise ocorreu em 17 de julho de 2007, quando a aeronave que fazia o voo 3054 da TAM sofreu um acidente.

 

Um Airbus da TAM, transportando 187 passageiros colidiu contra um galpão e um posto de gasolina ao ultrapassar os limites da pista de pouso e invadir a Avenida Washington Luís, nos arredores do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

 

Imprensa e oposição atribuíram a responsabilidade ao governo. Alguns dias depois, João Doria uniu-se ao executivo Paulo Zottolo, presidente da Philips, e ao advogado Luiz Flávio Borges D'Urso, da OAB-SP, para lançar o "Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros".

 

O movimento ficou conhecido pelo lema "Cansei", que estampava os materiais publicitários, e tinha por objetivo criticar o "caos aéreo", a "corrupção" e "falta de segurança" do governo Lula. A iniciativa ganhou apoio de entidades patronais, da FIESP.

Também ganhou a adesão de políticos de oposição e empresários, além de ser promovido por atores da Rede Globo, apresentadores de televisão, cantores e celebridades em geral. O principal ato organizado pelo movimento foi um protesto na Praça da Sé, no centro de São Paulo.

 

Fartamente divulgado, o protesto foi marcado para 17 de agosto, um mês após o acidente. A manifestação contou com a presença de diversas celebridades: Hebe Camargo, Ana Maria Braga, Regina Duarte, Luana Piovani, Ivete Sangalo, Seu Jorge, Sérgio Reis, Zezé di Camargo, etc.

 

Apesar das convocatórias e da presença de celebridades, a adesão ao protesto foi baixa: cerca de 2 mil pessoas compareceram. E embora os idealizadores afirmassem que a iniciativa era "apartidária", a manifestação foi marcada por gritos de "Fora Lula" e "Fora PT".

 

Os parentes das vítimas do acidente foram ignorados pela organização e ficaram presos na rampa de acesso, sem permissão para ir até o palco, reservado para as celebridades. A presença dos parentes sequer foi anunciada pelos organizadores.

Agnaldo Rayol cantou o Hino Nacional e o mestre de cerimônias João Batista de Oliveira declamou o Hino do Exército, exortando o público a "lutar pela pátria com fervor". Já o padre Antônio Maria evocou a inspiração divina. "Hoje, Deus diz pra nós: 'Estou cansado."

 

Identificado como uma manifestação do antipetismo da elite, o movimento se tornou alvo de zombaria, sobretudo pelas cenas ridículas de socialites milionárias enroladas na bandeira nacional berrando que estavam cansadas — enquanto seguranças expulsavam moradores de rua.

 


Para piorar, um dos organizadores do evento, Paulo Zottolo, deu uma declaração lamentável ao criticar o governo Lula. "Não se pode pensar que o Brasil é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado".

 

A declaração de Zottolo lhe rendeu o título de "persona non grata" no estado do Piauí e conferiu ao movimento a pecha adicional de xenófobo.

 

Wadih Damous, presidente da seccional fluminense da OAB e parlamentar do PT, classificou o "Cansei" como "um movimento de fundo golpista, estreito, que só conta com a participação de setores e personalidades das classes sociais mais abastadas do estado de São Paulo".

 

Até mesmo o conservador Cláudio Lembo, governador de São Paulo, criticou a manifestação, dizendo que o movimento tinha "figuras conhecidas que sempre possuíram e possuem uma visão elitista do país" e ironizou o lema "Cansei" como um termo de "dondocas enfadadas".

 

Conceição Aparecida dos Santos, moradora de uma ocupação, pediu a palavra, mas foi convidada a se retirar. "Os pobres é que estão cansados. Pedi aos organizadores para falar ao microfone, não deixaram. Moro em uma ocupação aqui no centro, e eles estão para nos despejar".

*Fonte: Pensar a História, perfil no X.


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