11 abril 2026

Tributo a Zé Eduardo

 

Era 1º de maio de 1984 e a classe trabalhadora, no Brasil inteiro, vivia momentos de muita efervescência. Em Sergipe, uma nova geração de sindicalistas, adeptos do sindicalismo combativo, acabara de fundar a Central Única dos Trabalhadores – CUT. Esses mesmos sindicalistas, anos antes, junto com outros jovens militantes do movimento estudantil, lideranças de movimentos sociais, militantes sociais ligados as comunidades eclesiais de base, mais alguns dissidentes do Partido Comunista, haviam também fundado o Partido dos Trabalhadores em Sergipe.

Naqueles tempos nós não éramos muitos e quase todos nos conhecíamos. Por isso mesmo, qualquer pessoa desconhecida em meio a uma manifestação política como a daquele 1º de maio, era vista com desconfiança. E não era apenas paranoia. Vale lembrar que ainda estávamos sob a ditadura militar e era comum haver arapongas da Polícia Federal infiltrados nos movimentos sociais.  

Naquele ano a manifestação em comemoração ao Dia do Trabalhador foi realizada na Praça Dom José Thomás, zona sul de Aracaju. Cheguei lá e logo me incorporei aos companheiros do Sindicato dos Bancários. Logo um deles me puxou pelo braço e cochichou ao meu ouvido:

- Você conhece aquele cara com jeito de mórmon ali? - Me pergunta Robertão apontando para um rapaz branco, vestido numa camiseta branca, calça jeans que de tão desbotada também parecia branca e tênis branco. O sujeito era alto, usava um grosso bigode, caladão, transitava em meio aos companheiros da Apemise (Associação Profissional dos Mineiros de Sergipe), entidade de classe dos operários da Petrobras Mineração – Petromisa.

- Parece um daqueles rapazes do Artnatus – respondi.

O Artnatus era um restaurante de comida natural que havia no centro da cidade e era administrado por um senhor e seus dois filhos. Os três vestiam branco o tempo todo.

- Prá mim é PF – vaticinou Robertão decidido a escorraçar o “mórmon”.

- Pera aí, deixe-me verificar com os mineiros se eles o conhecem – ponderei.

Me aproximei dos companheiros da Petromisa e assim que me avistou, Marcelinho, então presidente da Apemise, me recepcionou:

- Oi Negão, tudo bem? Deixe-me lhe apresentar um companheiro nosso. O Mineiro. Ele é geólogo da Petromisa e tá na luta com a gente lá. 

Pronto. Nem mórmon, nem araponga, nem o rapaz do Artnatus. O Mineiro era José Eduardo de Barros Dutra, ou simplesmente Zé Eduardo, um dos maiores, mais brilhantes e mais qualificados quadros políticos do Partido dos Trabalhadores e do movimento sindical em Sergipe.

Terminamos aquele 1º de maio de 1984 no bar. No Saneamente. Era um barzinho onde a jovem esquerda sergipana se reunia para lavar a alma com cerveja gelada e pensar a revolução pacifica que nos levaria a um tempo novo de democracia, de liberdade e de um mundo melhor para todos.

Desde as primeiras palavras trocadas, foram surgindo uma identidade, uma sintonia e uma cumplicidade. Tínhamos gostos semelhantes. Gostávamos do mesmo tipo de música. Adorávamos cinema e comentar sobre filmes e o desempenho de atores e diretores. Nos gostávamos do cinemão de Hollywood. Ele rolava de rir quando eu dizia que não gostava do cinema francês porque os filmes deles eram feitos no escuro, com pouca luz, e eu não suporto escuro.

Foi assim que naquele 1º de maio de 1984 eu encontrei o irmão que não tinha até então. Ele alvo e eu negro. Nós dois, alvinegro. Sim, botafoguenses de coração e alma. Éramos da mesma idade. Nascidos no mesmo ano de 1957 éramos quase gêmeos. Eu de 17 de janeiro. Ele de 11 de abril. Ele se vangloriava de ser mais novo que eu 2 meses e 24 dias. Moramos juntos e viajamos juntos. Nos conhecíamos bem e nos entendíamos por gestos e olhares.

Certa vez, viajando pela Espanha, depois de visitarmos vários pontos turísticos de Barcelona, paramos num boteco perto do Hotel em que estávamos hospedados. Aliás, outro ponto que tínhamos em comum: adorávamos boteco. Quanto mais pé sujo, melhor. Pois bem, naquela noite em Barcelona fazia um frio de menos 6 graus. Entramos no boteco da Vina (pronuncia-se Bina) para bebermos cerveja, comermos um petisco antes de dormir. Foi quando eu vi na prateleira uma garrafa de Moscatel. Trata-se de um tipo de vinho feito da uva Moscato de sabor adocicado. Mostrei pro Zé e contei que foi com aquela bebida que eu tive, ainda adolescente na velha Capela, o meu primeiro porre. Coincidentemente o Zé falou que ele também tinha se embebedado pela primeira vez quando ainda garoto na cidade de Caputira (MG), com o mesmo Moscatel. Mandamos descer uma garrafa, depois outra, depois outra... resultado: nos embriagamos pela segunda vez com o velho Moscatel, agora na Catalunha.

Segundo Zé Eduardo, deveria haver uma conexão entre Capela, Caputira e Catalunha, cujos nomes começavam com a mesma sílaba e que era justificada pelo vinho Moscatel. Estava, portanto, criada a Conexão Moscatel. Além de tudo, uma homenagem ao vinho que nos batizou para a vida etílica. Talvez esteja aí, na nossa vivência interiorana, a simbiose que nos aproximou, externou nossas semelhanças e nos fez amigos irmãos.

A experiência acumulada nas lutas democráticas dos anos 80, uma fulgurante inteligência, e um aguçado feeling político colocou Zé Eduardo como um dos principais quadros petista e protagonista da cena política sergipana. Em 1986, o Partido dos Trabalhadores lança uma chapa com 12 candidatos a deputado estado estadual, entre eles José Eduardo Dutra. Apoiado por amplos setores do movimento sindical sergipano, ele termina a eleição em terceiro lugar. O PT elegeu dois deputados estaduais. Marcelo Déda e Marcelo Ribeiro. Zé Eduardo ficou como primeiro suplente.

Nesse período, Zé concilia o trabalho como geólogo na Petromisa, com sua atuação no movimento sindical e como dirigente partidário. Com a transformação da Associação dos Mineiros em Sindicato, Zé Eduardo vira presidente do Sindimina. No Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores de 1988, ele é eleito dirigente nacional da CUT, enquanto o PT sergipano o convoca para ser seu secretário sindical.

Na memorável campanha presidencial de 1989, a primeira depois de mais de duas décadas sem eleições para presidente da república, Zé Eduardo foi escolhido pelo PT de Sergipe para coordenar a companha de Lula no estado. Ali se revelou o articulador político. Bom negociador, conciliador, confiável, predicados que o credenciou para ser escolhido pelos petistas sergipanos como candidato a governador do estado no ano seguinte.

Do outro lado, o campo político conservador que havia rachado na eleição de1986, se reunificou num bloco denominado Acordão. João Alves, liderança do Partido da Frente Liberal – PFL, que já houvera governado a capital e o estado, voltava a ser candidato. Apoiado pelo então governador Antônio Carlos Valadares e pelo senador Albano Franco entre outras lideranças da direita sergipana, João foi eleito com folga, mas Zé Eduardo liderou o campo progressista e de esquerda naquela eleição abrindo caminho para o PT se transformar num dos principais partidos de Sergipe e anos mais tarde conquistar a Prefeitura de Aracaju e o governo do estado.

Além de todas as frentes de atuação, Zé ainda enfrentava uma árdua batalha contra a privatização da Petromisa. A empresa fazia parte da lista de estatais que o governo Collor pretendia privatizar. Ao final, Zé saiu-se vitorioso. Sob sua liderança a luta dos mineiros da Petromisa impediu que a empresa fosse privatizada sendo encampada pela também estatal Companhia Vale do Rio Doce. Anos mais tarde, já sob o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, a Vale também seria privatizada.

Em 1993 Zé Eduardo é eleito presidente do Partido dos Trabalhadores em Sergipe e lidera o partido nas negociações de uma frente progressista para as eleições de 1994. O PT, até então um partido um tanto sectário, pouco afeito a política de alianças, entrou nesse processo abrindo uma nova página na construção de um novo momento político colocando o Partido no papel de protagonista na estratégia de levar o campo progressista a governar pela primeira vez o Estado de Sergipe, secularmente governado por conservadores de direita.

Fruto da capacidade de liderança, da sabedoria como conduziu o PT no processo de construção da Frente, da determinação e da clareza dos objetivos a serem alcançados, Zé Eduardo terminou sendo indicado pelo Partido para compor a chapa majoritária como candidato a uma das duas vagas de senador daquela eleição. A outra vaga ficou para o ex-governador Antônio Carlos Valadares, que depois de ter sido traído pelo campo conservador, deixou as hostes da direita se aliando ao bloco progressista onde atua até hoje. A chapa era liderada pelo ex-prefeito Jackson Barreto, tradicional quadro da esquerda sergipana, como candidato a governador, tendo como candidato a vice-governador o então senador Francisco Rollemberg, ele também um político dissidente do campo conservador. Essa foi uma eleição histórica. Além de ter levado Jackson ao segundo turno na disputa com Albano Franco, essa chapa elegeu os dois senadores. Valadares e o próprio Zé Eduardo. Foi também a eleição que levou, pela primeira vez, um petista a Câmara dos Deputados. Marcelo Déda que havia perdido a reeleição de deputado estadual em 1990, dessa vez foi um dos oito deputados federais eleitos por Sergipe. Os dois, Zé e Déda, tiveram mandatos tão destacados, que viraram referências nacional, lideraram suas bancadas no Senado e na Câmara e se transformaram em orgulho dos sergipanos.

Oito anos depois, em 2002, fruto do excepcional trabalho realizado como senador da república representando o Estado de Sergipe, Zé Eduardo tinha uma reeleição tranquila, segundo a opiniões correntes entre os analistas político da época. Mas Zé era diferenciado. Não era um carreirista da política. Não era egocêntrico. Compreendia a política como o espaço da construção coletiva. E ainda por cima tinha um enorme senso de responsabilidade. E foi por compreender a responsabilidade daquele momento histórico que Zé abriu mão de uma reeleição praticamente certa para o Senado, por uma candidatura com eleição duvidosa para o governo do Estado. Pensou no coletivo. Pensou no seu Partido. E assim pavimentou o caminho para o PT conquistar o governo em 2006 com Marcelo Déda à frente.

Aquela foi uma eleição muito disputada. De um lado o ex-governador João Alves liderava o campo da direita. Esse campo conservador tinha ainda como candidato o ex-senador Francisco Rollemberg que havia retornado ao seu antigo ninho. Era o candidato governista apoiado pelo então governador Albano Franco. Contra os dois titãs da direita, esgrimia o líder esquerdista José Eduardo Dutra. E o fazia com a habilidade de sempre. E foi dominando a arte de esgrimir na política que Zé derrotou o candidato governista e foi para o segundo turno contra João Alves.

No segundo turno, outra eleição. O campo conservador se juntou e fez uma das campanhas mais virulentas e abjetas que vimos em Sergipe. A prática de xenofobia virou oficial nos palanques e nos veículos de comunicação do Estado. Zé era chamado de forasteiro em todos os cantos e espaços da campanha direitista. Para se ter ideia dos absurdos cometidos, o presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe de então, então Desembargador Antônio Góis, apareceu no programa eleitoral de rádio e TV pedindo voto para João Alves contra Zé Eduardo.

Em 2003, com a vitória de Lula a presidente da república, Zé é indicado presidente da maior estatal brasileira, a Petrobras. E mais uma vez fez história. Os números prodigiosos da época mostram o êxito de sua gestão, também marcada por seu compromisso com a ética. Tanto que quando veio a crise do chamado Mensalão, vários dirigentes da estatal foram denunciados e presos por envolvimento em corrupção e mesmo depois de minuciosas investigações, Zé Eduardo nunca teve sequer seu nome citado em algum mal feito. Assim era Zé Eduardo. Sério, honesto, ético e competente.

Em 2006 Zé voltou a ser candidato ao senado. Mais uma vez foi vítima de xenofobia e da já conhecida virulência da direita local. Sua adversária, Maria do Carmo, esposa do governador João Alves, foi eleita usando desbragada e abertamente a máquina do Estado. Os órgãos de Estado, responsáveis pela fiscalização e lisura do processo eleitoral mais uma vez fizeram vistas grossa e ouvidos de mercador para as denúncias.

Passada a eleição Zé Eduardo assume a presidência da BR Distribuidora, mais uma vez indicado pelo agora reeleito presidente Lula. Em 2009 ao ser convocado para assumir a presidência nacional do Partido dos Trabalhadores, Zé mais uma vez dá provas de sua fidelidade ao projeto político liderado pelo PT deixando o comando da estatal. Como presidente do PT ele vira um dos coordenadores da vitoriosa campanha da presidenta Dilma Roussef.

Tempos depois, acometido por um câncer, Zé abdica da presidência do Partido e se dedica a um tratamento que em princípio apresenta resultados animadores. Praticamente curado retoma ao trabalho, agora como diretor da Petrobras e fica nesse cargo até que a doença volta a ser diagnosticada e ele vai para junto de sua família em Belo Horizonte onde continua o tratamento e vem a falecer na madrugada do domingo, dia 04 de outubro de 2015, aos 58 anos.

Apesar das campanhas desairosas de que foi vítima, em Sergipe Zé Eduardo é reconhecido como um homem digno, um político honesto, competente, de princípios rígidos e um amigo leal e solidário. Dentre outras homenagens, José Eduardo Dutra virou nome de um conjunto habitacional em Aracaju onde residem pessoas de baixa renda. Uma homenagem prestada pelo então governador Jackson Barreto.

Naquele domingo de outubro de 2015, o Brasil perdia um de seus filhos mais brilhantes, Sergipe perdia um de seus representantes político mais talentosos e eu perdia meu único e amado irmão.

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