Era 1º
de maio de 1984 e a classe trabalhadora, no Brasil inteiro, vivia momentos de
muita efervescência. Em Sergipe, uma nova geração de sindicalistas, adeptos do
sindicalismo combativo, acabara de fundar a Central Única dos Trabalhadores –
CUT. Esses mesmos sindicalistas, anos antes, junto com outros jovens militantes
do movimento estudantil, lideranças de movimentos sociais, militantes sociais
ligados as comunidades eclesiais de base, mais alguns dissidentes do Partido
Comunista, haviam também fundado o Partido dos Trabalhadores em Sergipe.
Naqueles
tempos nós não éramos muitos e quase todos nos conhecíamos. Por isso mesmo, qualquer
pessoa desconhecida em meio a uma manifestação política como a daquele 1º de
maio, era vista com desconfiança. E não era apenas paranoia. Vale lembrar que
ainda estávamos sob a ditadura militar e era comum haver arapongas da Polícia
Federal infiltrados nos movimentos sociais.
Naquele
ano a manifestação em comemoração ao Dia do Trabalhador foi realizada na Praça
Dom José Thomás, zona sul de Aracaju. Cheguei lá e logo me incorporei aos
companheiros do Sindicato dos Bancários. Logo um deles me puxou pelo braço e
cochichou ao meu ouvido:
- Você
conhece aquele cara com jeito de mórmon ali? - Me pergunta Robertão apontando
para um rapaz branco, vestido numa camiseta branca, calça jeans que de tão
desbotada também parecia branca e tênis branco. O sujeito era alto, usava um
grosso bigode, caladão, transitava em meio aos companheiros da Apemise
(Associação Profissional dos Mineiros de Sergipe), entidade de classe dos
operários da Petrobras Mineração – Petromisa.
-
Parece um daqueles rapazes do Artnatus – respondi.
O
Artnatus era um restaurante de comida natural que havia no centro da cidade e
era administrado por um senhor e seus dois filhos. Os três vestiam branco o
tempo todo.
- Prá
mim é PF – vaticinou Robertão decidido a escorraçar o “mórmon”.
- Pera
aí, deixe-me verificar com os mineiros se eles o conhecem – ponderei.
Me
aproximei dos companheiros da Petromisa e assim que me avistou, Marcelinho,
então presidente da Apemise, me recepcionou:
- Oi
Negão, tudo bem? Deixe-me lhe apresentar um companheiro nosso. O Mineiro. Ele é
geólogo da Petromisa e tá na luta com a gente lá.
Pronto.
Nem mórmon, nem araponga, nem o rapaz do Artnatus. O Mineiro era José Eduardo
de Barros Dutra, ou simplesmente Zé Eduardo, um dos maiores, mais brilhantes e
mais qualificados quadros políticos do Partido dos Trabalhadores e do movimento
sindical em Sergipe.
Terminamos
aquele 1º de maio de 1984 no bar. No Saneamente. Era um barzinho onde a jovem
esquerda sergipana se reunia para lavar a alma com cerveja gelada e pensar a
revolução pacifica que nos levaria a um tempo novo de democracia, de liberdade
e de um mundo melhor para todos.
Desde
as primeiras palavras trocadas, foram surgindo uma identidade, uma sintonia e
uma cumplicidade. Tínhamos gostos semelhantes. Gostávamos do mesmo tipo de
música. Adorávamos cinema e comentar sobre filmes e o desempenho de atores e
diretores. Nos gostávamos do cinemão de Hollywood. Ele rolava de rir quando eu
dizia que não gostava do cinema francês porque os filmes deles eram feitos no
escuro, com pouca luz, e eu não suporto escuro.
Foi
assim que naquele 1º de maio de 1984 eu encontrei o irmão que não tinha até
então. Ele alvo e eu negro. Nós dois, alvinegro. Sim, botafoguenses de coração
e alma. Éramos da mesma idade. Nascidos no mesmo ano de 1957 éramos quase
gêmeos. Eu de 17 de janeiro. Ele de 11 de abril. Ele se vangloriava de ser mais
novo que eu 2 meses e 24 dias. Moramos juntos e viajamos juntos. Nos
conhecíamos bem e nos entendíamos por gestos e olhares.
Certa
vez, viajando pela Espanha, depois de visitarmos vários pontos turísticos de
Barcelona, paramos num boteco perto do Hotel em que estávamos hospedados.
Aliás, outro ponto que tínhamos em comum: adorávamos boteco. Quanto mais pé
sujo, melhor. Pois bem, naquela noite em Barcelona fazia um frio de menos 6
graus. Entramos no boteco da Vina (pronuncia-se Bina) para bebermos cerveja,
comermos um petisco antes de dormir. Foi quando eu vi na prateleira uma garrafa
de Moscatel. Trata-se de um tipo de vinho feito da uva Moscato de sabor
adocicado. Mostrei pro Zé e contei que foi com aquela bebida que eu tive, ainda
adolescente na velha Capela, o meu primeiro porre. Coincidentemente o Zé falou
que ele também tinha se embebedado pela primeira vez quando ainda garoto na
cidade de Caputira (MG), com o mesmo Moscatel. Mandamos descer uma garrafa,
depois outra, depois outra... resultado: nos embriagamos pela segunda vez com o
velho Moscatel, agora na Catalunha.
Segundo
Zé Eduardo, deveria haver uma conexão entre Capela, Caputira e Catalunha, cujos
nomes começavam com a mesma sílaba e que era justificada pelo vinho Moscatel.
Estava, portanto, criada a Conexão Moscatel. Além de tudo, uma homenagem ao
vinho que nos batizou para a vida etílica. Talvez esteja aí, na nossa vivência
interiorana, a simbiose que nos aproximou, externou nossas semelhanças e nos
fez amigos irmãos.
A experiência
acumulada nas lutas democráticas dos anos 80, uma fulgurante inteligência, e um
aguçado feeling político colocou Zé Eduardo como um dos principais quadros
petista e protagonista da cena política sergipana. Em 1986, o Partido dos
Trabalhadores lança uma chapa com 12 candidatos a deputado estado estadual,
entre eles José Eduardo Dutra. Apoiado por amplos setores do movimento sindical
sergipano, ele termina a eleição em terceiro lugar. O PT elegeu dois deputados
estaduais. Marcelo Déda e Marcelo Ribeiro. Zé Eduardo ficou como primeiro
suplente.
Nesse
período, Zé concilia o trabalho como geólogo na Petromisa, com sua atuação no
movimento sindical e como dirigente partidário. Com a transformação da
Associação dos Mineiros em Sindicato, Zé Eduardo vira presidente do Sindimina.
No Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores de 1988, ele é eleito
dirigente nacional da CUT, enquanto o PT sergipano o convoca para ser seu
secretário sindical.
Na
memorável campanha presidencial de 1989, a primeira depois de mais de duas
décadas sem eleições para presidente da república, Zé Eduardo foi escolhido
pelo PT de Sergipe para coordenar a companha de Lula no estado. Ali se revelou
o articulador político. Bom negociador, conciliador, confiável, predicados que
o credenciou para ser escolhido pelos petistas sergipanos como candidato a
governador do estado no ano seguinte.
Do
outro lado, o campo político conservador que havia rachado na eleição de1986,
se reunificou num bloco denominado Acordão. João Alves, liderança do Partido da
Frente Liberal – PFL, que já houvera governado a capital e o estado, voltava a
ser candidato. Apoiado pelo então governador Antônio Carlos Valadares e pelo
senador Albano Franco entre outras lideranças da direita sergipana, João foi
eleito com folga, mas Zé Eduardo liderou o campo progressista e de esquerda naquela
eleição abrindo caminho para o PT se transformar num dos principais partidos de
Sergipe e anos mais tarde conquistar a Prefeitura de Aracaju e o governo do
estado.
Além
de todas as frentes de atuação, Zé ainda enfrentava uma árdua batalha contra a
privatização da Petromisa. A empresa fazia parte da lista de estatais que o
governo Collor pretendia privatizar. Ao final, Zé saiu-se vitorioso. Sob sua
liderança a luta dos mineiros da Petromisa impediu que a empresa fosse
privatizada sendo encampada pela também estatal Companhia Vale do Rio Doce.
Anos mais tarde, já sob o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, a Vale
também seria privatizada.
Em
1993 Zé Eduardo é eleito presidente do Partido dos Trabalhadores em Sergipe e
lidera o partido nas negociações de uma frente progressista para as eleições de
1994. O PT, até então um partido um tanto sectário, pouco afeito a política de
alianças, entrou nesse processo abrindo uma nova página na construção de um
novo momento político colocando o Partido no papel de protagonista na
estratégia de levar o campo progressista a governar pela primeira vez o Estado
de Sergipe, secularmente governado por conservadores de direita.
Fruto
da capacidade de liderança, da sabedoria como conduziu o PT no processo de
construção da Frente, da determinação e da clareza dos objetivos a serem
alcançados, Zé Eduardo terminou sendo indicado pelo Partido para compor a chapa
majoritária como candidato a uma das duas vagas de senador daquela eleição. A
outra vaga ficou para o ex-governador Antônio Carlos Valadares, que depois de
ter sido traído pelo campo conservador, deixou as hostes da direita se aliando
ao bloco progressista onde atua até hoje. A chapa era liderada pelo ex-prefeito
Jackson Barreto, tradicional quadro da esquerda sergipana, como candidato a
governador, tendo como candidato a vice-governador o então senador Francisco
Rollemberg, ele também um político dissidente do campo conservador. Essa foi
uma eleição histórica. Além de ter levado Jackson ao segundo turno na disputa
com Albano Franco, essa chapa elegeu os dois senadores. Valadares e o próprio
Zé Eduardo. Foi também a eleição que levou, pela primeira vez, um petista a
Câmara dos Deputados. Marcelo Déda que havia perdido a reeleição de deputado
estadual em 1990, dessa vez foi um dos oito deputados federais eleitos por
Sergipe. Os dois, Zé e Déda, tiveram mandatos tão destacados, que viraram
referências nacional, lideraram suas bancadas no Senado e na Câmara e se
transformaram em orgulho dos sergipanos.
Oito
anos depois, em 2002, fruto do excepcional trabalho realizado como senador da
república representando o Estado de Sergipe, Zé Eduardo tinha uma reeleição
tranquila, segundo a opiniões correntes entre os analistas político da época.
Mas Zé era diferenciado. Não era um carreirista da política. Não era
egocêntrico. Compreendia a política como o espaço da construção coletiva. E
ainda por cima tinha um enorme senso de responsabilidade. E foi por compreender
a responsabilidade daquele momento histórico que Zé abriu mão de uma reeleição
praticamente certa para o Senado, por uma candidatura com eleição duvidosa para
o governo do Estado. Pensou no coletivo. Pensou no seu Partido. E assim
pavimentou o caminho para o PT conquistar o governo em 2006 com Marcelo Déda à
frente.
Aquela
foi uma eleição muito disputada. De um lado o ex-governador João Alves liderava
o campo da direita. Esse campo conservador tinha ainda como candidato o
ex-senador Francisco Rollemberg que havia retornado ao seu antigo ninho. Era o
candidato governista apoiado pelo então governador Albano Franco. Contra os
dois titãs da direita, esgrimia o líder esquerdista José Eduardo Dutra. E o fazia
com a habilidade de sempre. E foi dominando a arte de esgrimir na política que
Zé derrotou o candidato governista e foi para o segundo turno contra João
Alves.
No
segundo turno, outra eleição. O campo conservador se juntou e fez uma das
campanhas mais virulentas e abjetas que vimos em Sergipe. A prática de
xenofobia virou oficial nos palanques e nos veículos de comunicação do Estado.
Zé era chamado de forasteiro em todos os cantos e espaços da campanha
direitista. Para se ter ideia dos absurdos cometidos, o presidente do Tribunal
de Justiça de Sergipe de então, então Desembargador Antônio Góis, apareceu no
programa eleitoral de rádio e TV pedindo voto para João Alves contra Zé
Eduardo.
Em
2003, com a vitória de Lula a presidente da república, Zé é indicado presidente
da maior estatal brasileira, a Petrobras. E mais uma vez fez história. Os
números prodigiosos da época mostram o êxito de sua gestão, também marcada por
seu compromisso com a ética. Tanto que quando veio a crise do chamado Mensalão,
vários dirigentes da estatal foram denunciados e presos por envolvimento em
corrupção e mesmo depois de minuciosas investigações, Zé Eduardo nunca teve
sequer seu nome citado em algum mal feito. Assim era Zé Eduardo. Sério,
honesto, ético e competente.
Em
2006 Zé voltou a ser candidato ao senado. Mais uma vez foi vítima de xenofobia
e da já conhecida virulência da direita local. Sua adversária, Maria do Carmo,
esposa do governador João Alves, foi eleita usando desbragada e abertamente a máquina
do Estado. Os órgãos de Estado, responsáveis pela fiscalização e lisura do
processo eleitoral mais uma vez fizeram vistas grossa e ouvidos de mercador
para as denúncias.
Passada
a eleição Zé Eduardo assume a presidência da BR Distribuidora, mais uma vez
indicado pelo agora reeleito presidente Lula. Em 2009 ao ser convocado para
assumir a presidência nacional do Partido dos Trabalhadores, Zé mais uma vez dá
provas de sua fidelidade ao projeto político liderado pelo PT deixando o
comando da estatal. Como presidente do PT ele vira um dos coordenadores da
vitoriosa campanha da presidenta Dilma Roussef.
Tempos
depois, acometido por um câncer, Zé abdica da presidência do Partido e se
dedica a um tratamento que em princípio apresenta resultados animadores.
Praticamente curado retoma ao trabalho, agora como diretor da Petrobras e fica
nesse cargo até que a doença volta a ser diagnosticada e ele vai para junto de
sua família em Belo Horizonte onde continua o tratamento e vem a falecer na
madrugada do domingo, dia 04 de outubro de 2015, aos 58 anos.
Apesar
das campanhas desairosas de que foi vítima, em Sergipe Zé Eduardo é reconhecido
como um homem digno, um político honesto, competente, de princípios rígidos e
um amigo leal e solidário. Dentre outras homenagens, José Eduardo Dutra virou
nome de um conjunto habitacional em Aracaju onde residem pessoas de baixa
renda. Uma homenagem prestada pelo então governador Jackson Barreto.
Naquele
domingo de outubro de 2015, o Brasil perdia um de seus filhos mais brilhantes, Sergipe
perdia um de seus representantes político mais talentosos e eu perdia meu único
e amado irmão.