27 março 2023

Véio Rabugento

 

Quem não conhece um idoso ranzinza? Eles estão por aí presentes em todos os lugares. Pode ser um avô, um tio ou até mesmo um vizinho daqueles que alguém já cuida logo de apelidá-lo de Seo Lunga, o rabugento mais famoso aqui do Nordeste. Aliás, ninguém sabe como era o humor de Seo Lunga quando jovem. Só se conhece esse personagem já idoso.

Essa mudança de humor do idoso talvez tenha a ver com o fato de não se enxergar mais a necessidade de agradar aos outros como antigamente. A idade concede ao idoso a autoridade para bradar um foda-se aos protocolos do cerimonial.

Minha mãe, por exemplo, foi uma das pessoas mais sensíveis que eu conheci. Noveleira devotada, se derretia em lágrimas com o amor entre Albertinho Limonta e Isabel Cristina de O Direito de Nascer, ou com as aventuras e desventuras da Escrava Isaura. Com o passar do tempo e o avanço da idade ela começou a brigar com os vilões. Testemunhei verdadeiros e surreais diálogos dela, dedo em riste, com Odete Roitman, vilã de Vale Tudo.

Ao mesmo tempo que não aceitava mais, sem um severo xingamento, as maldades executadas pelos bandidos das novelas, minha mãe era só carinho com os mocinhos. Ou melhor, com as mocinhas.  As vacas da fazenda que antes eram anônimas, passaram a atender pelos nomes de suas atrizes preferidas: Maitê, Glória, Suzana, etc.

Eu não assisto novelas. Primeiro porque sou ansioso e não tenho paciência para assistir um filme que leva meses para acabar. Segundo, porque as poucas que vi, tinha como atração principal a minha mãe brigando com os personagens malvados e isso, que era muito divertido, eu deixei de ter. Mas assisto todos os programas sobre futebol e política da TV.

Outro dia me peguei batendo boca com André Rizek e PC Vasconcelos num programa sobre futebol do SporTV. Me bateu uma espécie de Déjà Vu. Mudei de canal e quando dei por mim estava brigando com Míriam Leitão e Fernando Gabeira. Desliguei a televisão e fui tomar meu remédio para a pressão.

03 março 2023

SOS Mata do Junco

 

Conforme costumo cantar em verso e prosa, eu sou da Capela, a Rainha dos Tabuleiros. Vivi minha infância e adolescência entre a Lagoa do Meio e a sede do município. Conheci cada palmo daqueles tabuleiros que iam do Favela até o Campo da Aviação por um lado, e até as Pedras pelo outro. Seus imensos e planos prados eram o melhor lugar para bater pelada com a molecada, meus vizinhos da Rua do Quiço. Catar cajuí, – um pequeno e azedo caju – era outra atividade certa e prazerosa, pois significava o melhor tira-gosto para acompanhar a meiota de Taquari que Luís Bicho, o mais velho entre nós, já “de maior”, podia comprar na bodega de seu Fiínho.

Naqueles tempos os tabuleiros da Capela eram um território quase sagrado, por isso chamado de Tabuleiros de Nossa Senhora. Assim, apesar de haver à época quatro usinas (Proveito, Vassouras, Santa Clara e Pedras) em atividade no município, nenhuma ousava plantar cana ali. Hoje em dia não há mais usinas de açúcar na Capela, mas também não há mais tabuleiros. O progresso levou os cajuís da minha infância/adolescência e tudo virou um imenso canavial.

Do outro lado da cidade reinava absoluta e misteriosa a Mata do Junco. Um dos poucos fragmentos que sobraram da Mata Atlântica em Sergipe e é o berço do Rio Lagartixo que abastece com suas águas os capelenses. Rica em biodiversidade, abriga 129 espécie de aves, além de outras espécies de animais, inclusive ameaçadas de extinção, como o macaco-guigó.  

A Mata do Junco já ia tomando o mesmo fim dos Tabuleiros de Nossa Senhora quando o então governador Marcelo Déda criou o Refúgio de Vida Silvestre Mata do Junco. Através do Decreto 24.944 de 26 de dezembro de 2007, o governador garantia a proteção daquele pedaço de Mata Atlântica e seus recursos naturais, especialmente as nascentes do Riacho Lagartixo e o macaco guigó (Callicebus coimbrai), além de potencializar a realização de pesquisas científicas, educação ambiental e ecoturismo. A reserva contém aproximadamente 894,76 hectares, sendo assim o segundo maior remanescente de Mata Atlântica de Sergipe.

Hoje cedo ouço da voz do conterrâneo Lizaldo Vieira, ambientalista e militante social, um SOS Mata do Junco. Segundo ele a Mata estaria sendo destruída por caçadores e madeireiros, sem nenhum óbice ou resistência do poder público. Isso é resultado direto de um modelo de governo retrogrado, ultrapassado, que não respeita a natureza e é descompromissado com a sustentabilidade tão cobrada pela sociedade contemporânea. Só isso explica a extinção da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos pelo governo passado e ao que parece, política seguida pelo atual governo.

Em defesa da Mata do Junco e da vida, as entidades da sociedade civil, ambientalistas, sociedade sergipana e, especialmente, capelense, precisam se mobilizar e cobrar da prefeita, vereadores, deputados e, fundamentalmente do governador do estado, uma ação firme no sentido de enfrentar o atual descaso e abandono da unidade do Refúgio de Vida Silvestre e consequentemente combater com rigor os predadores, protegendo assim o Lagartixo, a Mata do Junco e a natureza.

02 março 2023

Assim nóis num progrede

 

Como todo bom velhinho eu durmo cedo e acordo com os galos. Invariavelmente, três e meia, estourando às quatro horas da matina já estou acordado. Para ficar bem informado minha primeira tarefa do dia é ler os jornais, sites, blogs, pasquins, panfletos, etc. O que vier eu traço. Sem deixar, claro, de beber minha dose diária de veneno nos grupos de WhatsApp. Leio, portanto, de um tudo. Da chamada “grande imprensa”, aos veículos locais. Confesso que fico melhor informado lendo a nossa imprensa conterrânea. Especialmente as colunas políticas. Um primor de jornalismo. Sou fã incondicional. E juro que não é bairrismo.

A nossa mídia nativa diz tudo que os jornalões do Centro Sul dizem e diz mais quatorze coisas. Que outra imprensa do mundo é capaz de passar recados de um político para outro através de seus colunistas? Publicar releases inteiros, sem ao menos corrigir os erros de português? Querem gesto mais democrático que esse? Imagina se um colunista do Washington Post ou do New York Times tem o faro, a inteligência, a perspicácia e a coragem de sugerir aos republicanos que não fazer oposição ao governo democrata de Joe Biden é bom para os EUA. Os caras são fracos demais. E ainda chamam aquilo de democracia.

O nosso jornalismo - à exceção de alguns poucos veículos que se mantêm fiéis a tese de George Orwell - já superou a máxima do escritor inglês há muito tempo. Afinal, para o bem de todos, temos a obrigação de esquecer nossas diferenças para vivermos em harmonia. Se existem alguns xiitas e outros chaatos de esquerda querendo contestar a paz dos cemitérios, nossos colunistas têm o dever de expô-los diariamente provando que aqueles estão errados. Concordo. Esse negócio de oposição é para gente que não sabe descer do palanque, e isso não é bom para nenhum governo. Olhemos para a Coreia do Norte, um exemplo de paz onde todos doam cabeças, troncos e membros para remarem na mesma direção. Penso que mais um pouquinho e chegaremos lá.

 

*O Ministério da Saúde recomenda: uma dose diária de ironia faz bem à saúde.

25 fevereiro 2023

Liberalismo à Brasileira

Todos sabemos que recentemente a Lojas Americanas levou uma tungada dos Mãos Leves, gangue liderada pelo capo, Sr. Mercado, de mais de 20 bilhões de reais.

Pois bem, o Bradesco, elemento envolvido nessa gatunagem, achou pouco e acaba de transferir sua parte, uma dívida de R$ 1,8 bilhão, para a União. Ou seja, eu, você e todos que moramos nos andares mais baixos do edifício Brasil iremos pagar essa bagatela.

Atenção você que estuda ou vê seus filhos estudando nas escolas públicas e privadas, numa educação dita de resultados controlada pela Fundação Lemamn e Cia, se ligue, mané. Esses mangangões só querem garantir a mão de obra do futuro e formar bobos incapazes de questionar o sistema de exploração.

Essa historinha do Bradesco x Americanas nos ensina, por meio da luminar didática freireana, como esse sistema funciona: o Bradesco empresta bilhões e lucra. De quem é o lucro? do Bradesco, claro. Mas, quando o Bradesco empresta bilhões e tem prejuízo, quem paga? O povo brasileiro.


08 fevereiro 2023

Quase Obituário

 

Desde que o torneio mundial de clubes foi reformulado pela FIFA em 2005, apenas oito times brasileiros disputaram essa competição. São eles: São Paulo, Internacional, Corinthians, Atlético Mineiro, Santos, Grêmio, Palmeiras e Flamengo. Nesse período, Flamengo e Internacional participaram duas vezes cada. Portanto, das dezoito competições realizadas o Brasil participou de somente dez delas. Dessas dez, em quatro participações, nossos times foram eliminados ainda na semifinal: Internacional (2010), Atlético Mineiro (2013), Palmeiras (2020) e Flamengo (2022)

Em seis oportunidades, chegamos às finais com São Paulo, Internacional, Santos, Corinthians, Grêmio e Flamengo. Em apenas três oportunidades o título de campeão foi comemorado. São Paulo em 2005, Internacional 2006 e Corinthians em 2012.

Esses dados mostram como o futebol brasileiro vem perdendo protagonismo no cenário mundial e ficando defasado em organização, nível técnico e estratégias do jogo.

Em 2011 o Santos de Neymar e Cia, passou um verdadeiro vexame diante do Barcelona perdendo por goleada. O Flamengo em 2019 perdeu por 1 a 0 para o Liverpool e botou as mãos para os céus agradecendo o placar diminuto com um “perdemos, mas jogamos de igual pra igual”, numa clara constatação de inferioridade.

Ontem mais uma vez, um clube brasileiro perde para um inexpressivo time da quarta divisão do futebol mundial, que chegou a dar olé no gigante(?) Mengão. Imagino a vergonha do maestro Júnior, Zico e cia, que em outros tempos não tomavam conhecimento dos times europeus, sendo campeões do mundo e dando show de futebol.

Muitos continuam achando que o que aconteceu ontem foi uma zebra. Não foi. Olhem os dados acima e vejam que esse tipo de resultado vem se tornando corriqueiro.

Quando vejo e ouço a imprensa esportiva contemporânea, cometer a heresia de comparar Gabriel Barbosa, atacante meia boca do Flamengo atual, ao genial Zico, perco a esperança de que voltaremos a ser vistos pelo mundo novamente como o país do futebol. Significa que estamos nos conformando com muito pouco.

Os nossos craques mais talentosos, Vini Jr, Rodrigo e outros dois ou três no máximo, estão saindo daqui antes mesmo de jogar nos nossos times. Temos que nos contentar com os que sobram, os que não dão certo na Europa, e os refugos rodados que não têm mais espaços por lá.

Se as campanhas vergonhosas da seleção brasileira em repetidas Copas e o olé do Al Hilal no Flamengo (o melhor time do Brasil, disparado), não forem suficientes para entendermos que paramos no tempo enquanto o resto do mundo evolui, vamos continuar nessa ladainha enfadonha de reclamar do juiz, do campo, da bola, ou “da filha da vizinha da rapariga do cabo de Capela”, como diz a letra do grande Henrique Teles, na música da sergipaníssima e ótima banda Maria Scombona, e assim, não acharemos o caminho de volta.

Concluo esse quase obituário dizendo da minha suspeita de que o pior ainda estar por vir. Quando vejo a grande maioria dos grandes clubes brasileiros, todas as principais competições nacionais e torneios regionais sendo patrocinados por casas de apostas… sei não, mas acho que isso vai dar merda.

02 fevereiro 2023

As Armas de Jorge

 

Não, não é o Jorge de Capadócia. Para esse Jorge aqui descrito, talvez seja mais apropriado o masculino do nome da cidade do velho e bom São Jorge.

É que as páginas de economia da “grande imprensa” têm mostrado, ainda que timidamente, dois escândalos financeiros que certamente estariam também nas páginas policiais fossem outros os personagens envolvidos.

Estamos falando dos rombos de R$ 40 bilhões na Lojas Americanas e de R$ 30 bilhões na Ambev. Uma mixaria de 70 bilhões de reais num país onde metade de sua população - calculada em 210 milhões de pessoas - vive nos dias de hoje em estado de insegurança alimentar. O ponto em comum entre os dois rombos são as digitais do bilionário Jorge Lemamn e dois de seus sócios, todos eles também conhecidos na mídia pela alcunha de Mercado.

Esse Jorge sentou praça no mercado nos meados dos anos 70 ao virar sócio de uma corretora, a Invesco, que veio a falir quatro anos depois.

Milagrosamente, depois de se juntar a dois elementos, Teles e Sicupira, que o acompanham em suas aventuras até hoje, o tal Jorge Maravilha virou, em pouco tempo, o cabra mais rico do Brasil, segundo a Revista Fobes.

Sim, Lemamn é aquele mesmo da fundação que investe na formação de políticos para “endireitar” o Brasil, além de patrocinar uma tal Educação de Resultados que tem encantado inocentes úteis pelo país a fora.

Quem pagará essa conta? Em se tratando de Brasil, não é difícil prever onde essa trolha de 70 bi vai acabar entrando.

31 janeiro 2023

Uma no cravo, outra na ferradura

     A expressão acima diz respeito a alguém que não quer se comprometer, utiliza argumentos dúbios e defende ambos os lados de uma contenda.

     Em trinta dias de governo, o governador Fábio Mitidieri visitou ministros, reivindicou obras e recursos, participou de reuniões com Lula e emitiu sinais de apoio ao governo federal onde, aliás, o seu PSD comanda três ministérios.

     Se no Planalto Fabio é Lula desde criancinha, no Congresso dá sinais de que apoiará uma ferrenha oposição ao mesmo. 

    O exemplo mais claro vem do Senado onde, na disputa para a presidência, os dois senadores aliados do governador já declararam apoio ao candidato do bolsonarismo/golpista/fascista, senador Marinho, que foi escalado para torpedear os projetos do governo Lula naquela casa.

     Das duas, uma: ou o apoio do governador ao presidente é da boca pra fora, ou ele demonstra grande fragilidade ao não liderar ninguém na sua base de apoio.

Tributo a Zé Eduardo

  Era 1º de maio de 1984 e a classe trabalhadora, no Brasil inteiro, vivia momentos de muita efervescência. Em Sergipe, uma nova geração de ...