28 março 2021

É Genocídio

Na semana que passou entramos na casa dos 3 mil mortos por dia pela COVID-19. Os cientistas e estudiosos preveem que nas próximas semanas esse número superará 4 mil mortes diárias. Já são mais de 310 mil pessoas mortas pelo vírus em apenas um ano.

Estamos sendo dizimados enquanto aqueles que deveriam adotar medidas de enfrentamento ao inimigo, assistem a tudo igual faziam as autoridades romanas quando do alto de seus camarotes no Coliseu, aplaudiam os cristãos serem devorados pelos leões.

Interessante observar que nossas autoridades não estão sozinhas na arena. Nos últimos dias a artista Xuxa, famosa "rainha dos baixinhos", referência para muitos de várias gerações de brasileiros, numa entrevista on-line na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, criticou os direitos humanos e defendeu que presidiários servissem de cobaias em experimentos para remédios e vacinas contra a COVID-19 e arremata dizendo que os detentos "serviriam para alguma coisa antes de morrer".

Nessa cruzada fascista, Xuxa tem a companhia da deputada paulista, Janaina Paschoal, a "musa do impeachment". Um dia após Xuxa, Janaína defendeu que se priorize salvar os mais jovens em detrimento dos idosos. "As vidas daqueles que viveram menos me preocupa mais." A deputada continua: "Aliás, penso que já estejamos no momento de estabelecer claramente regras para priorizar o uso dos recursos disponíveis: leitos, respiradores, etc. É pesado, mas é necessário!". Do túmulo, Hitler, Mengele, Goebbels, certamente aplaudem a tudo isso regozijados.

Não pensemos que as falas das ilustres damas são vozes isoladas nesse pensamento. A cada dia que passa fica mais claro que o fascismo na sociedade brasileira é estrutural. Precisaríamos de uma revolução cultural para mudar essa realidade. Enquanto não acontece, caminhamos cordiais para o abatedouro.

Há um filme no Netflix, chamado A Grande Mentira - permitam-me o spoiler - que conta uma história onde 03 agentes do Mossad vão sequestrar um criminoso nazista que vive em Londres, e levá-lo para ser julgado em Israel. Num determinado momento do filme, o nazista já preso e dominado, provoca o agente que lhe serve a comida, com a seguinte fala:

"Porque você acha que foi tão fácil exterminar seu povo? A sua fraqueza. Eu as via. Todos os dias eu as via. Todos eles pensando apenas em evitar serem açoitados, chutados ou mortos. Todos pensando apenas em si mesmos. Porque você acha que foi preciso apenas quatro soldados para conduzir mil pessoas até as câmaras de gás? Porque nenhum teve coragem de resistir. Nenhum se sacrificou. Nem mesmo quando levamos embora suas crianças. Então eu sabia que seu povo não tinha o direito de viver."

            Tomara que tanta semelhança seja mera coincidência. 


26 março 2021

O Paciente Gentil

Depois de esperar dois meses pelo dia da consulta e após três horas e meia assistindo ao programa de Ana Maria Braga na TV da recepção da clínica, chegou a vez de Gentil ser atendido. Não. Não era pelo SUS. Gentil era cliente de um famoso plano de saúde. Marinete, sua esposa, administradora das finanças da família, de há muito já vinha insistindo para que o marido se livrasse daquele pesado encargo que comprometia o orçamento doméstico.

- Pagar tão caro e ter um tratamento inferior ao do SUS é um desperdício – reclamava Marinete. Mas a vaidade de Gentil, funcionário público, subchefe-adjunto do setor de recursos humanos, impedia qualquer evolução nessa discussão.

 - Você está ficando doida, mulher? Já pensou se um dia alguém da repartição me flagra na fila do SUS? Por essa vergonha eu não passarei – respondia Gentil, dando o assunto por encerrado.

Filho do meio de Dona Cecilia e Seo Euclides, Gentil era um menino prodígio. Sua mãe, confiante na sua inteligência, investia todas as fichas em seu futuro. Disciplinado, educado, cortês, ainda fazia jus ao nome que tinha: era a gentileza em pessoa. Aluno aplicado estudou os primeiros anos na Escola Municipal Maria Alda Souza, no povoado Lagoa do Meio, sob os ensinamentos da professora Marlene e o severo acompanhamento de sua mãe. Seo Euclides morreu, Gentil ainda era criança, mal conheceu o pai. Esse fato fez de sua mãe o esteio da família. Zelosa, rigorosa, responsável, fazia o melhor doce de maracujá perruche do universo. Uma das razões pela qual eu sempre pedia à minha mãe, permissão para brincar com os meninos de Dona Cecília.

Tempos mais tarde, ainda vi Gentil estudante do Básico. Depois soube que se formara técnico em contabilidade e estava trabalhando no escritório da Usina Santa Clara. Lá pela segunda metade da década de 80, os herdeiros da Usina, incapazes de manter o império do velho Ariosvaldo Barreto, foram a falência. Gentil, ao perceber o barco afundando, pegou o último trem de Valadares e seguiu viagem rumo um emprego estável na burocracia do Estado.

Reencontrei Gentil na recepção da clínica, rindo de uma piada do Louro José. Estávamos ainda nos cumprimentando quando uma voz de aeroporto lhe toma a atenção:

- Senhor Gentil, favor comparecer ao guichê número 7. - Depois de uma volta completa naquele aquário onde ficam as atendentes, Gentil finalmente localiza o guichê 7. Senta-se diante de uma senhora de cabelos aloirados que aparentava uns 55 anos embora fizesse um cosmético esforço para parecer mais nova. Sara era o nome que estava escrito no crachá. Depois de 10 minutos conversando com uma amiga ao celular sobre o último paredão do Big Brother Brasil, Sara começa a preencher a ficha de Gentil.

- Nome completo?

- Gentil José da Silva

- Idade?

- 64 anos

- Data de nascimento?

- 17 de janeiro de 1957

- Local de nascimento?

- Lagoa do Meio, Capela, Sergipe

- Identidade, CPF e carteirinha do plano de saúde

- Aqui estão

- Profissão?

- Servidor público

- Contracheque? Comprovante de residência? CPF da mãe? Qual a cor do cavalo branco de Napoleão? Cadê o Mário?

- Que Ma... peraí, Sara. Isso aqui tá parecendo o questionário para a vacinação da prefeitura – reage o paciente Gentil quase impaciente.

- Agora o senhor senta ali e aguarda um pouco que o doutor Henrique Jekyll está numa cirurgia e vai demorar um pouquinho. Ao ouvir o nome do médico eu, não sei porque, me lembrei de um filme que tinha um médico que tinha duas personalidades. Peguei Gentil pelo braço e ainda tentei convencê-lo a não ir àquela consulta, mas ele reagiu meio que indignado:

- O que você tem contra o Dr. Jekyll? Ele é o médico de todos lá da repartição. Um ótimo médico. Aff! Também, vocês do PT implicam com tudo – reagiu Gentil se afastando de mim com a cara emburrada.

Já estava terminando o Globo Esporte quando finalmente Gentil foi chamado para a consulta.

- Tire a camisa – ordenou o doutor Jekyll, um senhor de cabelos grisalhos, aparentando 60 anos, que anotava alguma coisa na ficha do paciente anterior sem sequer olhar para o Gentil.

- A gravata também? – pergunta o barnabé visivelmente nervoso. O médico levantou a cabeça e com cara de impaciência, altera a determinação.

- Deixa pra lá, basta arregaçar a manga da camisa. 

- A esquerda ou à direita? 

Nessa altura quem parecia precisar de cuidados era o médico. Demonstrando impaciência o doutor bate numa sineta em cima da mesa e, como mágica, entra a atendente, uma jovem morena com cabelos loiros, numa justíssima saia branca, a blusa igualmente branca, de tão apertada parecia que os seios iriam saltar pelo espaço cedido por aqueles três botões próximo a gola providencialmente desabotoados. Enquanto a moça dava água com açúcar ao médico, Gentil de olhos arregalados ia se acalmando à medida que o Doutor ia voltando ao normal.   

Reiniciada a consulta o médico examina a pressão de Gentil. Faz cara de quem não acredita no que vê e mede de novo. Balança a cabeça quando vê o resultado e tenta mais uma vez. 16 por 10.

- O senhor é hipertenso? – pergunta o médico.

- Eu não sei – responde Gentil desconfiado. 

- Na sua família tem alguém hipertenso? 

- Também não sei não, doutor.

- O senhor é alérgico a penicilina? E a ácido acetilsalicílico?  

Gentil, imaginando ter que responder mais um longo questionário, já estava para ter um derrame, quando, movido por um surpreendente surto de coragem e uma oportuna dose de irritação, deu um murro na mesa que o tensiômetro do médico saiu voando. A mocinha atendente tentou de novo socorrer o médico, mas o Gentil barrou:

- Fora daqui! - a morena nervosa abriu mais um botão da blusa e saiu se abanando.

- Doutor, não me faça mais nenhuma pergunta. Se eu soubesse respondê-las não teria vindo ao médico. Aliás, se soubesse as respostas, eu seria o médico. Portanto, trate de descobrir o que é que eu tenho e receite um remédio que me deixe bom logo.

O Dr. Jekyll já ia voltando a sentar em sua cadeira quando Gentil se lembra de alertá-lo sobre um outro dado da maior importância:

- Ah! E não quero saber dessa historinha de me proibir de beber e comer, hein? Pois na quarta tem festa de confraternização do pessoal da contabilidade, na quinta é a turma do RH e na sexta fui convidado pra tomar um uisquinho 12 anos na festa da diretoria.                     

25 março 2021

BASTA!

Chega, já deu, a indignação manifestada pelas mídias sociais é insuficiente. Não podemos mais assistirmos passivos ao genocídio que está acontecendo no Brasil hoje. Já passamos dos 300 mil mortos por um vírus que não encontra nenhum obstáculo para continuar matando. E tudo isso com o estímulo de quem, por dever, deveria estar a enfrentá-lo.

As instituições, cegas e surdas, se limitam a cards plasticamente bonitos, frases de efeito nas mídias e notas de repúdio. Os donos do poder, aqueles a quem alguns chamam de Mercado, com a mão invisível cheia de dinheiro as custas do sofrimento do povo, assistem a tudo com seus sorrisos de hienas e, quando no máximo, escrevem cartinhas chorosas.

Oh, representantes do povo! Em que mundo, em que estrela se escondestes? Estão embuçados no Céu? Pelo jeito estamos no mato sem cachorro. Estão todos pensando na próxima eleição e nos deixaram à mingua diante de nossos algozes.

Sim, são muitos os algozes. Além do miliciano mór – gente acostumada a matar – existem os cúmplices. E estes só aumentam em número. Primeiro vieram os que venderam a alma e a pena. Estes, a serviço de uma imprensa servil ao Deus Mercado, lacaios buscando um lugar na mesa de jantar dos patrões, escreveram ao povo sobre “escolhas difíceis”. Deu no que deu e hoje, cínicos que são, fazem cara de paisagem. Somem-se aos escribas da grande imprensa, aos novos ricos que queriam passear na Disney e aos milhões de incautos que foram ludibriados por aqueles, todos os que hoje cruzam os braços diante da matança.

Ontem vimos mais um exemplo de que estamos sozinhos, ao Deus dará. Numa sessão do Senado Federal – pasmem – onde ilustres senadores recebiam o ministro das Relações Exteriores, um assessor especial do presidente da República, fez um gesto nazista em alusão a supremacia branca. Repito: em pleno Senado do República. Nada aconteceu com esse criminoso. O antissemitismo, nazismo, ou supremacia branca, por definição constitucional são crimes. Violam o Inciso III do art. 3º; VIII, do art. 4º; art. 5º, caput. Não se trata de liberdade de expressão, portanto.

Pois, esse rapaz cometeu um crime, numa sessão do Senado Federal transmitida para o público e não foi preso. A ADL (Anti-Defamation League), identifica o gesto do assessor do presidente do Brasil como um símbolo que os indivíduos de extrema direita utilizam como “tática de trolagem” em postagens entre si nas redes sociais. Denunciado o seu gesto o assessor-criminoso, do presidente também criminoso, tripudiou mais uma vez. Ao negar que fizera um gesto nazista, disse que estava arrumando a lapela. Sabem qual foi a desculpa que o nazista Adolf Eichman deu em seu julgamento sobre gesto idêntico? “Eu estava só arrumando a lapela”. O que me dizem de tamanho escárnio?

Não dá mais! Não temos tempo para esperar mais por ninguém. Instituições, senadores, deputados, imprensa, ninguém. Ou reagiremos agora ou morreremos todos sem sequer o direito de berrar. Quem sobreviver reze pela profecia de Riobaldo: “um dia entra em desuso matar gente”.


19 março 2021

Paixão de Carnaval

A primeira vez que ouvi falar em Carnaval, eu era criança. Não lembro quantos anos tinha, mas lembro de meu pai sentado ao lado de um imenso rádio Philco, ouvindo e cantando junto com Claudionor Germano, uma linda música de Capiba: “os melhores dias de minha vida, eu passei contigo querida...”

Não sei por que, na Lagoa do Meio não tinha carnaval. Tinha todas as festas do mundo, menos carnaval. O mais parecido com a festa de Momo era quando, no sábado de aleluia, os rapazes, encapuzados, usando vestidos coloridos, máscaras de papelão, tocando chocalhos, cantando músicas e fazendo muito barulho, ganhavam as estradas do lugar assustando as crianças e divertindo os adultos por todo o povoado. Eram as Caretas.  

Os brincantes saiam em busca de donativos nas residências, entre os transeuntes e nos armazéns. O objetivo das Caretas era coletar gêneros alimentícios, bebida e dinheiro para realizar a tradicional brincadeira de malhação do Judas, na noite do Sábado de Aleluia, para a madrugada de Domingo de Páscoa, quando os católicos celebram a Ressurreição de Jesus Cristo.

Por isso estranhei o fato de meu pai estar cantando uma música que não fosse de Nélson Gonçalves, seu grande ídolo, ao que ele me explicou:

- Ah meu filho, é que o carnaval me traz boas lembranças dos bailes do Clube da Rhodia.  

Meu pai e minha mãe casaram-se muito jovens. Num tempo em que o povo da Lagoa do Meio só tinha como alternativas descer pra São Paulo ou subir pra São Pedro, eles foram tentar a sorte no Sul maravilha. Depois de alguns subempregos, meu pai virou operário da Rhodia Química Brasileira, uma multinacional francesa instalada em Santo André, no ABC paulista. Trabalhou lá 13 anos. Um belo dia, não aguentou mais a saudade, pediu as contas e voltou pra roça. Mas jamais esqueceu os bailes de carnaval do clube da Rhodia.

Meu pai gostava de contar que num desses bailes teria dançado com Hebe Camargo. Alguns, talvez por inveja, achavam que se tratava de uma gabolice. Minha mãe, enciumada, sorria de canto de boca e meneava a cabeça como se colocasse dúvida na aventura do marido. Eu, orgulhoso, achava o máximo a façanha do meu velho. Certamente, Hebe ainda jovem, iniciando a carreira, antes de se tornar celebridade, ganhava uns trocados animando festinhas e bailes como aqueles promovido pela Rhodia. Meu pai, assanhado que era, não perdeu a oportunidade de dar uma voltinha de dança com aquela moça que viria a ser a Rainha do Rádio e, posteriormente, também Rainha da TV brasileira.

Em 1968, aos 11 anos, deixei a roça para estudar na cidade. Em Capela, à medida em que ia crescendo, morria de inveja dos rapazes mais velhos que já tinham idade e dinheiro para frequentar o Rio Branco. Era a sede social do Rio Branco Sport Club, tradicional clube de futebol dos capelenses. No dia seguinte aos bailes, logo cedo eu corria para a praça da Matriz. Lá, em frente à igreja, tinha um pé de fícus e embaixo dele ficava um banco de cimento onde a rapaziada se reunia para resenhar a noite anterior no Rio Branco. Eu, menino intrometido, ficava ali papagaiando os caras, com os olhos vidrados de admiração e os ouvidos atentos para escutar as peripécias vividas e contadas por eles. Quem dançou com quem, quem levou taboca de quem, quem beijou, quem foi beijado, quem namorou, quem desnamorou. Eu viajava naquelas conversas e não via a hora de chegar minha vez de também ter minha própria história prá contar.

Estudante do Básico eu era colega de Suzete, a Suzy. Eu, bom de matemática. Ela, sofrível na matéria. Daí surge uma aproximação e o convite para ajudá-la nos estudos. Além de colegas viramos amigos. Eu estava na casa dos 15 pra 16 anos e já era um rapagão. Suzy era quatro anos mais velha que eu. Não parecia, nem eu sabia até então. Ela não perdia um baile no Rio Branco. Seu pai e seus irmãos eram sócios.

Vésperas do carnaval de 1973, na sexta-feira, depois dos estudos na casa de Suzy, ela me surpreende com um convite para o baile do sábado no Rio Branco Sport Club. Nem dormi direito. Às 5 da manhã daquele dia, prá mim, histórico, eu já estava de pé. Passei o dia todo contando as horas. Mal começou a noite e eu já estava de prontidão na Lanchonete de Chico que ficava ao lado da entrada do clube. Depois de beber meio litro de batida de limão - era o que o dinheiro dava para pagar – ouço os primeiros acordes da banda Unidos em Ritmo. O baile finalmente iria começar.

Entreguei o convite ao porteiro e, lívido, coração acelerado, subi a escadaria. Quando venci o último degrau e me deparei com o imenso salão, minhas pernas tremiam tanto que mal podiam me sustentar. Estava ali a fina flor da elite capelense. Os usineiros, os fazendeiros, os comerciantes, todos com suas senhoras. Os genros, as noras, os filhos e as filhas solteiras, os rapazes da praça da Matriz... e eu. Lá também estava Suzy. Quando a avistei saindo do outro lado do salão, caminhando em minha direção, vestindo um curtíssimo short jeans e uma blusa branca de botões, quase transparente, com um nó na frente deixando o umbigo à mostra, minhas pernas pararam de tremer. Eu simplesmente não as sentia mais.

Mal percebi quando ela me pegou pelas mãos me arrastando para o meio do salão onde saímos dançando... “Quanto riso, oh! Quanta alegria...” Minha cabeça era um turbilhão por onde passava mil coisas. Pensava no encontro com os rapazes no banco da Matriz no dia seguinte. Eu já era um deles. Lembrei do meu pai dançando com Hebe Camargo no clube da Rhodia e pensei baixinho, “quem sai aos seus não degenera”. Lá pelas tantas, a orquestra estanciana parece me chamar o feito a ordem: “vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval”, o rosto dela próximo e frente ao meu, lábios abertos em um leve sorriso, pedia e merecia um beijo. Para mim, um beijo de verdade. Um beijo de cinema. Um beijo de Romeu em Julieta na Sacada dos Capuleto. Para ela: “que isso, colega, sinto muito, você não entendeu, foi só um selinho, coisa de amigo”.  


17 março 2021

Para Aracaju, Com Amor

Era ainda muito jovem quando aqui cheguei. Não pretendia ficar. Queria só estudar mais um pouco e voltar para a roça. Mexer com a terra, plantar e colher a vida calma do campo. Com saudades de casa subia no alto dos Capuchinhos e ficava a olhar a cidade. Olhando fui aos poucos descobrindo suas curvas, seus segredos, o contorno perfeito do seu belo rosto e ao sentir o cheiro de mangaba madura que exalava do seu corpo, me apaixonei.

Apaixonado, fui ficando. Morri de ciúmes quando vi o rio Sergipe, ousado, acariciar seu dorso. Quando a fúria de um vendaval enciumado descobriu o lençol do seu velho mercado, eu estava ali ao seu lado. Curtimos, bebemos e dançamos as tardes e noites eternas da nossa paixão nas retretas da Praça Fausto Cardoso, nos hi fi da Iara, nos embalos de sábado à noite na Aquários, Iemanjá e Tio Zé, nas batidas do Manequito e no escurinho do Vitória, do Aracaju, do Pálace, do Rio Branco. Ao som de Travolta e Tinha Charles, namorei as mocinhas nas festinhas discothèque e, ouvindo Waldick Soriano, amei as meninas de Tia Vanda.

No velho Batistão, empunhei a bandeira rubra do Mais Querido, compartilhei arquibancadas, dividi lágrimas de alegria nas vitórias e recebi abraços solidários dos vermelhinhos nas derrotas. Ao vestir o manto vermelho, adotei uma religião. Ergui um altar e ali coloquei meus deuses Ailton, Zé Pequeno, Naninho, Duda, Cipó, Rocha, Ricardo Alegria da Cidade, Giraldo, Onça e toda a geração de Sandoval, Elenilson e cia que operou o milagre da multiplicação dos títulos.

Aqui me fiz cidadão, idealizei um sonho e fui à luta. Fiz greve, lutei contra a ditadura, pela redemocratização do meu país e ainda luto pela consolidação da nossa tênue democracia. Aqui nasceram meus 05 filhos. Meu patrimônio mais caro. Foi aqui que encontrei uma princesa, filha das águas, trazida pela força dos mares verdes do Ceará, que fez do meu ninho um castelo, e o encheu de sorriso e alegria, iluminando minha alma, aquecendo o meu corpo e apaziguando o meu coração. 

Dessa forma, tal qual Ulisses em Ciclopes, fiquei preso por vontade a essa terra que Inácio Barbosa concebeu a partir da costela de um dos rios que habitavam esse paraíso em meio a araras e cajueiros. Como uma Jocasta, Aracaju encanta, seduz e apaixona seus filhos naturais e adotivos. Não há quem por aqui passe que não queira retornar um dia. Não há quem daqui saia, que não conte as horas de voltar.

Hoje, no seu aniversário de 166 anos, ao render minha homenagem, renovo meus sentimentos de carinho, afeto, orgulho e eterna paixão pela minha querida Aracaju.   


Yes, Nós Temos Jabuticaba

Vimos nos últimos dias as articulações feitas pelo governo + Centrão para a substituição do Sinistro da Saúde que, por problemas de falta de saúde para a população, foi obrigado a pular a cerca do laranjal.

O Centrão sugeria para o ministério, a médica cardiologista Ludhmila Hajjar, mas está, ao defender os protocolos da ciência para enfrentar o corona, foi pisoteada pelo tropel do gado bolsonarista. Sobrou pra nós um ministro com o sugestivo nome de Quedroga.

Dessa forma, ao ler a imprensa nativa, descobri assustado que no Brasil existem o “médico pro ciência” e o médico anti-ciência, também denominado de médico bolsonarista.

É preciso dizer que há aí uma contradição em termos. No resto do mundo, médico que não segue a ciência é chamado de charlatão. Mas nós somos mesmo diferentões. Somos o país do balacobaco e do ziriguidum.

O Brasil não é para amadores, já dizia o genial Tom Jobim. O não menos genial Tim Maia acrescentou: aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita.

Imaginem se Tom & Tim soubessem que nossas universidades estão formando médicos anti ciência e advogados lavajatistas.


12 março 2021

O Rio da Minha Aldeia

O riacho da Imbira, corre entre a Lagoa do Meio e as Barracas, separa os dois povoados, e deságua no Rio Japaratuba. Os minadouros que dão origem a sua nascente ficam no sopé de um pequeno platô localizado entre a Caninana e os Cantinhos. No cume fica o sitio onde, numa casinha de taipa com quatro cômodos, moravam, José Fagundes, Maria das Virgens e seus filhos. Fagundes era magarefe e auxiliava o marchante de porco Zé de Cajuza na tarefa de esfoliar os suínos, por isso era conhecido na comunidade pela alcunha de Zé de Pelar. Já Maria das Virgens, a Dona Maroca, além de cuidar dos filhos, era farinheira, lavadeira e ajudava Zé de Pelar no roçado de milho e mandioca.

Dona Maroca pariu quatorze filhos. Seis meninas e oito meninos. Destes, morreram cinco – duas meninas e três meninos – uns durante o parto, outros recém nascidos. Edite, a filha mais velha, fugiu com Zé Vaqueiro e mora numa fazenda no Gado Bravo em Dores. Jacira, a do meio, casou com um comboieiro e foi-se embora pro Cedro. Messias, Ariston e Verdiano, os três filhos mais velhos, foram a procura de emprego em São Paulo e viraram bóias-frias nos canaviais de Guariba. João, Das Dores, Carminha e Nelito, menores, continuavam em casa morando com os pais.

Naqueles tempos é como se houvesse um acordo tácito, uma regra não escrita, que valia para todas as famílias. Ao completar dezoito anos o filho homem tinha que arrumar um meio de vida. É como se esbarrasse ali o compromisso dos pais em sustentá-lo. As filhas, que geralmente casavam antes dessa idade, quando chegava aos dezoito ainda solteira, começavam a se preocupar em ficar no caritó e virar um peso para os pais.

Quando menino, eu gostava de frequentar a casa de Zé de Pelar e Dona Maroca. Era um dos poucos lugares que minha mãe me deixava ir sem sobrosso. Ela gostava dos modos de Maroca e admirava a criação que ela dava aos filhos. Além de amigo e colega de escola dos meninos, eu adorava as tangerinas, sapotis e jabuticabas que eles cultivavam no sítio. Sempre que ia ali perdia a noção do tempo e, invariavelmente, quando voltava pra casa depois do horário combinado, ganhava um carão e ou umas lapadas de bainha de facão, da minha mãe.

Do telheiro da casa de Zé de Pelar, uma vista deslumbrante nos fazia imaginar o paraíso. Daquele ponto era possível ver o imenso vale que surgia desde a encosta do planalto, esverdeado pela relva, árvores, plantas das mais variadas espécies e flores de todas as cores pintavam aquele cenário como um quadro de Monet. E no meio daquele espetáculo, corria majestoso como a prima donna de uma ópera de Bizet, o riacho da Imbira.  Em suas margens, taiobas, crotes, orquídeas selvagens, antúrios e onze horas, cresciam viçosas sob os carinhos das abelhas, beija-flores e borboletas. Altivas e imponentes como sentinelas que protegiam aquele santuário do inimigo, as goiabeiras, mangueiras, jaqueiras, mamoeiros, jenipapeiros, jameleiros, em cujos galhos os passarinhos faziam ninhos, nasciam os frutos que faziam a festa de Sanhaços, Canários, Sabiás, Cabeças, Bem-te-vis... e da molecada que se lambuzava e traquinava solta em meio aquela inesquecível paisagem.

O privilegiado espectador que, sentado no surrado banco de gameleira na varanda de Zé de Pelar, olhasse para além do vale, acima dele, avistaria as sete palmeiras da Lavagem, a chaminé do Engenho das Pedras e, lá longe, bem distante, dava prá ver a torre da Igreja Matriz da Capela. Ali, naquele cenário, nas companhias de João, Nelito, Carminha e Das Dores, brincando de boca-de-forno, cabra-cega, empinando papagaio, armando arapuca para pegar Nambu, tirando mel de arapuá ou ouvindo atento e medroso as histórias de Lobisomem, Caipora e Fogo Corredor, contadas pelo velho Zé de Pelar, eu vivi dias muito felizes da minha infância.  

Nas chuvas do inverno ou nas trovoadas, o riacho da Imbira virava rio. Se transformava completamente. Era como se incorporasse outra personalidade. De pacífico e inofensivo riacho, se convertia em um bravio mar de março. Suas correntezas se agigantavam, corriam célere e assustadoramente violentas, arrastando árvores, animais, gente e tudo que ousasse ficar à sua frente. Era como se a natureza lhe exigisse pressa para chegar ao Japaratuba.

Quando o verão trazia o sol de volta e com ele os tempos áridos, o riacho da Imbira voltava a ficar calmo, sereno, manso. Gentil como um cavalheiro, secava partes de seu leito para dar passagem aos trabalhadores que iam roçar, para os moradores irem à feira, para as crianças frequentarem a escola e para o gado mudar de pastagem.

Passados os anos, as matas foram sendo dizimadas pelo “progresso” que os fazendeiros levaram para aquelas paragens, cedendo lugar para as capineiras que alimentam o gado leiteiro e de corte.  Quando o tal do progresso chega no campo em forma de dinheiro, uma das primeiras vítimas é o meio ambiente. O riacho da Imbira já não provoca mais enxurradas. Os crotes, as taiobas e as orquídeas, já não estão mais lá, devorados que foram pelo capim-pangola e pelo Tordon a serviço da deusa ganância. Borboletas e Beija-Flores, voam a esmo tristes e entorpecidas por herbicidas. As abelhas que restaram já não mais fazem mel. Os Sanhaços, Canários, Sabiás, Cabeças, Bem-te-vis voaram todos para um lugar muito longe. Já não há mais goiabeiras, mangueiras, jaqueiras, jenipapeiros, jameleiros e mamoeiros. Nem o sitio de Zé de Pelar com suas jabuticabeiras e sapotizeiros, existe mais. Ali, da Caninana até onde a vista alcança o capim reina absoluto.

Do riacho da Imbira, depois de arrancarem seus cílios e encherem suas veias de agrotóxicos, sobrou apenas um fio d’água, como se fosse uma lágrima. Lágrima de dor e resistência.

O riacho da Imbira, o rio da minha infância, onde meu pai me ensinou a nadar, é o rio que corre em minha aldeia. O poeta português, Fernando Pessoa, me ensinou e toda a gente sabe que o riacho da Imbira é o rio da minha aldeia. E para onde ele vai. E de onde ele vem. E por isso, porque pertence a menos gente, é mais livre e maior o rio da minha aldeia. Pelo riacho da Imbira vai-se para o Mundo. Abenção, Fernando Pessoa.


Tributo a Zé Eduardo

  Era 1º de maio de 1984 e a classe trabalhadora, no Brasil inteiro, vivia momentos de muita efervescência. Em Sergipe, uma nova geração de ...