Nesses tempos hodiernos, onde a verdade
deixou de ter valor absoluto e a pós-verdade vale mais, onde a inteligência
artificial lhe desincumbe do esforço de pensar, elaborar e construir através de
sua inteligência natural, tenho me sentido um sujeito anacrônico e com uma
sensação de peixe fora d´água. Explico:
Interiorano, filho de uma professora
polivalente, aprendi a ler antes mesmo de ir para a escola. Uma vez na escola,
muito estimulado por minha mãe, adquiri o hábito de ler. E gostava disso.
Lembro que a escola recebia todos os anos, pacotes de livros da FENAME –
Fundação Nacional de Material Escolar, autarquia então ligada ao Ministério da
Educação. Dentre esses livros, romances de Machado de Assis, José Alencar,
Aluísio Azevedo, Raul Pompéia, dentre outros. Eu, ainda guri, os devorava
vorazmente e depois de cada leitura minha mãe ainda provocava para uma resenha
oral de cada livro lido.
Fui crescendo, os anos passando e o
hábito de ler foi virando vício. Apaixonado por todas as artes, cinema, teatro,
música..., mas é na literatura que ganho asas e vôo.
Já adolescente, passei a me interessar
por política e fui ler os clássicos dessa ciência e da filosofia. Platão,
Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Marx, Engels, Weber, Gramsci,
Hanna Arendt me deram régua e compasso.
Ao longo do tempo, na atuação no
movimento sindical e na vida partidária, tive oportunidade de debater teses e
conceitos que ajudaram a aprofundar o aprendizado dessas leituras, algo
fundamental para aprimoramento e para a prática da teoria.
Sim, mas porque “anacrônico” e “peixe
fora d’água”? Porque em temos de IA´s e TikTok´s, as leituras densas e
interpretação de texto viraram coisas quase obsoletas. Quem ousar argumentar
sobre política hoje em dia, seja com base em Aristóteles ou em Yascha Mounk, a
depender dos interlocutores, pode ser chamado de Rolando Lero por algum
“letrado” indigente intelectual que estiver na roda. Mesmo assim, insisto no
método.
Nos últimos dias o Brasil viveu momentos de grande mobilização popular para eleger o presidente da república. Era mais que uma disputa entre Democracia x Autocracia. Era uma peleja entre Civilização x Barbárie. Venceu a Democracia. Venceu o processo civilizatório. Mas, apesar da retumbante vitória, porque fico com a sensação de que para a imensa maioria dos cento e vinte milhões de brasileiros que foram as urnas, o sentimento no dia seguinte ao fato histórico é o mesmo do torcedor que sai do estádio feliz pela vitória do seu time de um lado e do outro uma torcida inteira com o sabor amargo da perda do campeonato?
Para responder a mim mesmo a tal
pergunta eu recorro a minhas lembranças das leituras de Raízes do Brasil -
Sérgio Buarque de Hollanda -, Casa Grande & Senzala – Gilberto Freyre -, Os
Donos do Poder – Raymundo Faoro -, O Povo Brasileiro – Darcy Ribeiro -.
Os livros citados acima falam sobre nós,
os brasileiros de forma geral, à esquerda e à direita. A maioria de nós
conseguiu vislumbrar e derrotar o perigo que viria. Com inteligência natural,
mesmo sem menosprezar nada do novo, conseguimos vencer o algoritmo e atingir
(literalmente) a Meta. Mas recorro a Darcy Ribeiro para perguntar: nós temos
uma ideia clara do que a gente é e do que a gente quer ser enquanto nação?
Entre os dias 05 e 25 de outubro foram
20 dias que abalaram o mundo. Nosso povo mostrou uma força que há muito não
mostrava. Não podemos agora enrolar as bandeiras e voltarmos pra casa. Que tal aproveitarmos
a fama mundial conquistada nesse processo e criarmos no Brasil um sentimento de
nação? Já seria um bom começo.