03 novembro 2026

Vencemos, mas o jogo continua

 

Nesses tempos hodiernos, onde a verdade deixou de ter valor absoluto e a pós-verdade vale mais, onde a inteligência artificial lhe desincumbe do esforço de pensar, elaborar e construir através de sua inteligência natural, tenho me sentido um sujeito anacrônico e com uma sensação de peixe fora d´água. Explico:

Interiorano, filho de uma professora polivalente, aprendi a ler antes mesmo de ir para a escola. Uma vez na escola, muito estimulado por minha mãe, adquiri o hábito de ler. E gostava disso. Lembro que a escola recebia todos os anos, pacotes de livros da FENAME – Fundação Nacional de Material Escolar, autarquia então ligada ao Ministério da Educação. Dentre esses livros, romances de Machado de Assis, José Alencar, Aluísio Azevedo, Raul Pompéia, dentre outros. Eu, ainda guri, os devorava vorazmente e depois de cada leitura minha mãe ainda provocava para uma resenha oral de cada livro lido.

Fui crescendo, os anos passando e o hábito de ler foi virando vício. Apaixonado por todas as artes, cinema, teatro, música..., mas é na literatura que ganho asas e vôo.

Já adolescente, passei a me interessar por política e fui ler os clássicos dessa ciência e da filosofia. Platão, Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Marx, Engels, Weber, Gramsci, Hanna Arendt me deram régua e compasso.

Ao longo do tempo, na atuação no movimento sindical e na vida partidária, tive oportunidade de debater teses e conceitos que ajudaram a aprofundar o aprendizado dessas leituras, algo fundamental para aprimoramento e para a prática da teoria.

Sim, mas porque “anacrônico” e “peixe fora d’água”? Porque em temos de IA´s e TikTok´s, as leituras densas e interpretação de texto viraram coisas quase obsoletas. Quem ousar argumentar sobre política hoje em dia, seja com base em Aristóteles ou em Yascha Mounk, a depender dos interlocutores, pode ser chamado de Rolando Lero por algum “letrado” indigente intelectual que estiver na roda. Mesmo assim, insisto no método.

Nos últimos dias o Brasil viveu momentos de grande mobilização popular para eleger o presidente da república. Era mais que uma disputa entre Democracia x Autocracia. Era uma peleja entre Civilização x Barbárie. Venceu a Democracia. Venceu o processo civilizatório. Mas, apesar da retumbante vitória, porque fico com a sensação de que para a imensa maioria dos cento e vinte milhões de brasileiros que foram as urnas, o sentimento no dia seguinte ao fato histórico é o mesmo do torcedor que sai do estádio feliz pela vitória do seu time de um lado e do outro uma torcida inteira com o sabor amargo da perda do campeonato?

Para responder a mim mesmo a tal pergunta eu recorro a minhas lembranças das leituras de Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Hollanda -, Casa Grande & Senzala – Gilberto Freyre -, Os Donos do Poder – Raymundo Faoro -, O Povo Brasileiro – Darcy Ribeiro -.

Os livros citados acima falam sobre nós, os brasileiros de forma geral, à esquerda e à direita. A maioria de nós conseguiu vislumbrar e derrotar o perigo que viria. Com inteligência natural, mesmo sem menosprezar nada do novo, conseguimos vencer o algoritmo e atingir (literalmente) a Meta. Mas recorro a Darcy Ribeiro para perguntar: nós temos uma ideia clara do que a gente é e do que a gente quer ser enquanto nação?

Entre os dias 05 e 25 de outubro foram 20 dias que abalaram o mundo. Nosso povo mostrou uma força que há muito não mostrava. Não podemos agora enrolar as bandeiras e voltarmos pra casa. Que tal aproveitarmos a fama mundial conquistada nesse processo e criarmos no Brasil um sentimento de nação? Já seria um bom começo.

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